O álcool, tão presente nas comemorações e encontros sociais, volta a ser destaque, mas, desta vez, sem motivos para celebrar. Três fatos recentes chamam a atenção e revelam diferentes faces de um mesmo problema:
– o consumo de bebidas adulteradas com metanol;
– a divulgação dos resultados do III LENAD ( Levantamento Nacional de Álcool e Drogas);
– a possível liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios de São Paulo após quase 30 anos.
Bebidas adulteradas: um risco invisível e mortal
Nos últimos dias, casos de intoxicação por metanol têm causado alerta em várias regiões do país. O metanol é uma substância tóxica que pode provocar cegueira, falência de órgãos e até a morte quando ingerido.
A adulteração geralmente ocorre em bebidas de baixo custo ou vendidas informalmente, sem controle sanitário.
Esse cenário reforça a necessidade de fiscalização rigorosa e educação da população sobre os riscos de consumir produtos sem procedência confiável. Por trás da bebida barata, pode haver um perigo letal.
III LENAD: o retrato do consumo de álcool no Brasil
O recém-divulgado III LENAD apresenta dados que merecem reflexão. O estudo mostra que o álcool continua sendo a substância psicoativa mais consumida no país, com aumento preocupante entre jovens e mulheres.O alcoolismo permanece um desafio relevante de saúde pública. O levantamento revelou que 11,9% dos adultos, cerca de 21 milhões de pessoas, apresentam critérios diagnósticos para dependência de álcool, percentual ligeiramente superior ao registrado em 2012 (10,6%). A prevalência entre homens (17,0%) é mais que o dobro da observada entre mulheres (7,1%), evidenciando desigualdades estruturais no padrão de consumo.Apesar dos impactos conhecidos, como acidentes, violência e dependência, apenas uma pequena parcela das pessoas com problemas relacionados ao álcool busca tratamento.Esses dados reforçam a urgência de políticas públicas eficazes, campanhas de conscientização e o fortalecimento de serviços especializados, como o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS-AD), para oferecer suporte a quem precisa de ajuda.
Liberação do álcool nos estádios: retrocesso ou liberdade de escolha?
Após quase três décadas de proibição, São Paulo discute a liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios, tema que divide opiniões.
De um lado, há quem defenda a medida como uma forma de modernizar o futebol e garantir liberdade aos torcedores. Autoridades trabalham para formalizar o acerto, e deputados pretendem agilizar a tramitação do tema, encerrando a proibição em vigor desde 1996.
Por outro lado, nós, como especialistas em saúde mental e dependência química, alertamos que o consumo de álcool em ambientes de grande aglomeração pode aumentar a violência e os riscos de acidentes, comprometendo a segurança de todos.
Diante de dados como os do III LENAD, que mostram o crescimento do uso problemático de álcool, a decisão exige cautela e responsabilidade social.
Reflexão final
Enquanto o álcool continua ocupando espaço de destaque na cultura brasileira, seus efeitos sobre a saúde pública, a segurança e as famílias tornam-se cada vez mais evidentes. Entre brindes e tragédias, precisamos olhar para o consumo de álcool com mais seriedade, valorizando a informação, a prevenção e o cuidado.
Hoje, o tema está em evidência, mas, infelizmente, ainda sem motivos para comemorar.
Fonte:
Caderno Temático – Resultados Consumo de Álcool na População Brasileira: https://lenad.uniad.org.br/cadernos-lenad/alcool_vf-250925.pdf
*Adriana Moraes: Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Saúde Mental e Dependência Química
*Dr. Ronaldo Laranjeira: Psiquiatra – Diretor-Presidente da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina)









