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A família e a falta de um “não”

Criança sapeca (iStock)Criança sapeca (iStock)

Crianças que não têm o costume de ouvir "não" podem desenvolver um comportamento exigente, temperamental e até exibir dificuldades de relacionamento

Que pai ou mãe que não quer o melhor para os seus filhos? Que não se esforça ao máximo para fazer as vontades da criança, ou comprar aquele brinquedo tão desejado? Afinal, todos já fomos pequenos e sabemos como é bom ganhar um presente que queríamos, não é verdade? A sensação é ótima, não apenas para as crianças, mas também para os adultos, que têm a satisfação de ver seus filhos felizes.

Oferecer o melhor para o desenvolvimento e felicidade dos filhos é o desejo de todos os pais, extremamente louvável, aliás. Tanto que é muito comum ver crianças tendo basicamente todas as suas vontades realizadas. Mas quando a situação chega a esse ponto, a pergunta que faço é: isso é saudável?

Vamos ao outro lado dessa história: também é muito comum, nesses mesmos casos em que os pequenos têm tudo e mais um pouco, vermos crianças que, ao se acostumarem com essa situação, acabam não valorizando o que têm. Pior: elas começam a desenvolver um comportamento cada vez mais exigente, temperamental e a exibir até dificuldades de relacionamento com os outros. Afinal, foram ensinadas que querer é ter, e caso aconteça o contrário, o mau humor e o nervosismo já começam a aparecer.

Os pais devem ter em mente que uma das coisas mais importantes para a vida dos seus filhos não é o celular top de linha ou atender a todas as suas vontades. É a noção de certos limites, que envolvem uma simples palavra: não.

Exatamente! Dependendo da situação, o “não” pode ser a melhor coisa que você pode dar ao seu filho, principalmente durante sua fase de crescimento. Mas vamos lá, não estou falando aqui de simplesmente exagerar na dose e proibir ou negar tudo o que seu filho quer. Mas sim ensinar que a vida é feita de conquistas e também de frustrações. Como isso pode acontecer, quando um jovem recebe tudo o quer, sem restrições? Essa atitude é uma das razões pelas quais crianças que ganham tudo (ou quase tudo) raramente valorizam o que têm. Afinal, para quê? Sua experiência lhes mostra que mais sempre está a caminho.

Isso cria para os jovens uma imagem irreal do mundo: basta querer algo e pronto! Não é necessário trabalho, tampouco sacrifício. E se esse algo não vem, no momento que eles querem, basta bater o pé que, no final, seu desejo será realizado. Vale até choramingar.

Como todos bem sabemos, a realidade não é nada assim. Para obter sucesso nos seus objetivos, é necessário muito esforço, dar o seu melhor. Não só na vida adulta, mas na infantil também, com os estudos, por exemplo. Esse padrão é extremamente perigoso para a juventude e influencia até na saúde. Diversos especialistas afirmam que, com o passar das décadas e o consequente aumento desse tipo de indulgência por parte dos pais, a saúde mental das crianças tem piorado, com o aumento de taxas de depressão infantil e do risco de que esses jovens se tornem adultos autocentrados e com problemas emocionais.

O pior? Essas mesmas crianças no futuro tendem a repetir tal comportamento, tornando-se assim pais que enchem seus filhos de bens materiais, reforçando um círculo vicioso e tão danoso.

A negativa na hora certa é sim uma demonstração de amor, proteção e também de educação. As crianças precisam ouvir “não” por diversas vezes em sua vida, principalmente quando pensamos nos seus caprichos, para aprenderem a lidar com decepções que certamente virão em seu caminho. Ao tentarem protegê-las desses desapontamentos, os adultos criam uma realidade paralela para esses jovens, que, no futuro, podem tornar-se incapazes de tocar a vida com seus próprios pés.

Não é difícil de imaginar que isso ocorra, já que desconhecer limites simplesmente não ajuda em nada as crianças a aprenderem a lidar com as dificuldades do cotidiano. Frustrações fazem parte da vida e, de certa forma, são boas para o ser humano, pois somente quando as vivenciamos aprendemos a lidar com essas situações, desenvolvendo um lado emocional saudável e recursos como empatia, paciência, resignação e também persistência.

Viu como uma simples palavra pode fazer uma falta gigantesca? Por isso, pais e mães que leem este texto: deem aos seus filhos o que realmente precisam e não tudo o que querem. Evite os excessos e saiba dizer “não” quando preciso. Afinal, é como diz o velho ditado: criamos os filhos para o mundo, e não para nós mesmos.

Fonte: Veja.com

Ronaldo Laranjeira

Psiquiatra e professor titular de psiquiatria da Unifesp, coordenador do Programa Recomeço, do governo do Estado de São Paulo, presidente da SPDM - Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina

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