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O uso nada inteligente das drogas para "turbinar" a mente

 O uso nada inteligente das drogas para "turbinar" a mente

Acha que seu efeito é garantido? Há controvérsias!

Uma das grandes mentiras da história é a de que o ser humano usa apenas 10% de seu cérebro. Essa ideia rondou os homens durante muito tempo, ainda que sua origem seja incerta. Há quem credite a afirmação ao psicólogo americano William James, que escreveu, em fins do século 19: "Estamos fazendo uso de apenas uma pequena parte de nossos recursos mentais e físicos". Há que atribua a grande mentira ao físico alemão Albert Einstein, embora não haja uma única evidência de que ele tenha dito ou insinuado tal coisa.

A ciência já comprovou que nosso cérebro é inteiramente funcional e fica ativo em tempo integral, mesmo quando dormimos ou assistimos TV, mas essa ideia ficou impregnada na carne, junto à ilusão de que, se desenvolvermos os 90% restantes, teríamos então poderes inimagináveis, como comunicação telepática e a capacidade de mover objetos com o poder da mente.

Órgão mais pesado do corpo humano, o cérebro é 100% utilizado diariamente. O que varia, e determina o funcionamento individual, é o modo como os neurônios – as células nervosas – se conectam, criam ligações e se fortalecem. É esse sistema que determina o processo da formação da memória, do aprendizado e outras funções cerebrais.

Apesar de todos os estudos, nem tão recentes, sobre o cérebro, muita gente ainda busca soluções milagrosas para turbinar a mente e isso é uma das prováveis explicações sobre a onda de sucesso dos remédios nootrópicos, tanto para estudantes ou jovens sobrecarregados de estudos, como para profissionais, principalmente da área de tecnologia e financeira (prática muito comum nos Estados Unidos).

Essa popularidade se deve em grande parte às rotinas estressantes, nas quais a necessidade de concentração e a privação do sono são comuns, resultando em uma mente cansada, que representa um desastre nos resultados - tanto profissionais como de estudos. O que é bem preocupante é que, muitas vezes, sintomas de várias doenças são interpretados como estresse, resultando em um tratamento inadequado.

"A maior parte das pessoas que nos procura por problemas na capacidade de concentração e memorização também apresenta outros sintomas, que muitas vezes são ignorados ou subestimados. Insônia, tristeza, desânimo, irritabilidade, inquietação, alterações do padrão alimentar são alguns dos mais comuns e normalmente indicam que há algo maior por trás da queixa inicial, normalmente algum transtorno do humor como depressão ou ansiedade. O conceito que as pessoas têm sobre estresse encaixa-se perfeitamente nesse contexto, com a diferença que, nesse caso, não reconhecem como sendo um real problema de saúde, mas como, simplesmente, uma mera consequência das dificuldades do dia a dia", explica o psiquiatra Fábio Armentano, coordenador da equipe de psicogeriatria do AME (Ambulatório Médico de Especialidades) Psiquiatria, na Vila Maria, em São Paulo.

Nootrópicos

A onda das “drogas da inteligência”, ou “smart drugs” tem mais apelo entre pessoas que estão mais expostas às situações de estresse: muitas horas corridas de trabalho/estudo diário; poucas horas de descanso; muita pressão por resultados – vestibulandos, estudantes de universidades em período de provas, trabalhadores das bolsas de valores e de empresas de investimento, entre outras.

São pessoas saudáveis e ativas que decidem tomar remédios próprios para Transtorno de Déficit de Atenção, Narcolepsia e até Mal de Alzheimer, com o intuito de diminuir os efeitos do acúmulo de horas sem dormir – perda de concentração, capacidade de memória e controle do sono.

A palavra nootrópico é o resultado da união de duas palavras de origem grega: nóos (mente) e tropo (direção), sendo utilizada para denominar as drogas que, em teoria, melhoram o desempenho do cérebro.

Nessa definição estão os compostos químicos piracetam e pramiracetam, cuja receita médica não é exigida nas farmácias e teoricamente agem nos processos de aprendizagem, memória, atenção, consciência, capacidade cognitiva e energia mental; os derivados anfetamínicos, como ritalina, que são indicados para o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), e os inibidores da acetilconesterase, cuja principal indicação dá-se no tratamento da doença de Alzheimer.

Efeitos colaterais existem

Parte da popularidade de tais drogas para turbinar o cérebro vem da ideia errônea de que esses medicamentos não têm efeitos colaterais.

"Esse conceito é, já de início, completamente equivocado tendo em vista que nenhuma substância é isenta de possíveis efeitos colaterais. Os derivados da anfetamina, por exemplo, devem ser cuidadosamente monitorados, tendo em vista que podem trazer ao indivíduo graves problemas de saúde, principalmente quando mal ou contra-indicados. Quadros psicóticos, crises de pânico e de agressividade, arritmias cardíacas são alguns dos efeitos adversos mais graves e, infelizmente, não tão incomuns. Todos estamos sujeitos a isso ao tomar medicações e portanto é importante discutir junto com o médico os potenciais riscos e benefícios do uso de qualquer substância. A meu ver, utilizar-se dessas medicações para aumentar a capacidade de concentração, não havendo uma doença de base que justifique precisamente sua indicação, é um erro e um risco desnecessário”, alerta o psiquiatra.

Além disso, os resultados positivos são muito controversos. Enquanto alguns especialistas reconhecem certos ganhos, muitos ainda duvidam da vantagem do uso por pessoas saudáveis. Mas o cenário é preocupante.

Em agosto de 2015 o jornal Folha de São Paulo afirmou (Jovens saudáveis usam remédios psiquiátricos para ir melhor em provas) que “as drogas dessa classe – Ritalina e Ritalina La (Novartis), Venvanse (Shire), Concerta (Janssen Cilag) e Stavigile (Libbs) – venderam 2,16 milhões de caixas entre julho de 2014 e julho de 2015”. Segundo o jornal, a venda de psicoestimulantes aumentou 25% nos últimos cinco anos no Brasil.

“São medicações cujos potenciais terapêuticos são bastante valiosos e com as quais devemos contar quando necessárias. O problema recai no uso mal-indicado, às vezes recreativo, e nesses casos a balança que avalia os riscos frente aos benefícios sempre pende para o lado negativo”, afirma Armentano.

Para o médico, não é só o uso sem indicação desses medicamentos que deve ser evitado, mas também a rotina que leva a ele. Não é saudável desconhecer nossos limites.

“É preciso que haja uma maior consciência sobre os limites impostos pelo organismo, pois não faz sentido passarmos a fazer uso de substâncias, e expormo-nos aos seus potenciais riscos, para trabalharmos 16 ao invés de 12 horas por dia, dormirmos quatro ao invés de oito horas por noite, simplesmente por acharmos que precisamos atender demandas cada vez maiores. Essa conta sempre nos é cobrada e às vezes em um futuro nem tão distante assim”, justifica o psiquiatra.

O ideal, em qualquer caso, é procurar o equilíbrio sempre: trabalho, lazer, descanso e alimentação saudável são igualmente importantes para a saúde física e mental.

 

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