O Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado neste 31 de maio, tem como objetivo conscientizar a população sobre os riscos associados ao uso da nicotina. No entanto, novas tecnologias fumígenas alteraram o perfil de consumo dos brasileiros. Dados inéditos da terceira edição do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) realizado por pesquisadores da Unifesp com financiamento da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) do Ministério da Justiça, mostram que os Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs), conhecidos popularmente como “vapes”, estão muito presente entre os adolescentes.
Quase 10% dos adolescentes entre 14 e 17 anos já consomem algum produto fumígeno no país e o cigarro eletrônico é a escolha de 8,7% deles (10,5% das meninas e 8,3% dos meninos), superando o uso do cigarro convencional. O estudo aponta que a iniciação desse hábito começa, muitas vezes, dentro de casa. Cerca de um quarto dos adolescentes brasileiros (24,7%) convive com pais que fumam o cigarro tradicional. Entre os jovens que vivem em lares sem fumantes, o uso do vape é de 8,5%; já nos lares onde os responsáveis fumam dentro de casa, esse índice quase dobra, saltando para 14,6%. No total, a exposição ao fumo dos pais aumenta em 87% a chance de o filho aderir ao cigarro eletrônico.
Segundo a coordenadora do LENAD III e pesquisadora da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), Clarice Sandi Madruga, o comportamento dos adultos influencia diretamente. Ela explica que, embora muitos pais demonstrem preocupação e conversem sobre os riscos, o exemplo prático na rotina familiar acaba normalizando o hábito. A pesquisadora lembra, ainda, que a substância central do vape continua sendo a mesma do cigarro antigo: a nicotina. A tecnologia e o dispositivo mudaram, mas o poder de causar dependência permanece o mesmo.
“Não surpreende que adolescentes expostos ao consumo de nicotina no ambiente familiar apresentem maior probabilidade de utilizar DEFs. A prevenção não depende apenas de orientar os filhos sobre os riscos das drogas, mas também dos exemplos e das normas que são construídos dentro de casa todos os dias”, destaca.
Quase 90% dos adolescentes usuários acreditam que estão consumindo apenas “líquidos saborizados”, sem princípio ativo. Entre os adolescentes que já experimentaram cigarros eletrônicos, 76,3% continuavam utilizando o produto no momento da pesquisa. A elevada taxa de continuidade é compatível com o potencial aditivo desses produtos e sugere que a experimentação frequentemente evolui para uso persistente.
Metodologia do Estudo
Iniciado em 2006, o LENAD consolidou-se como ferramenta científica e estatística que auxilia na construção de políticas públicas voltadas ao sistema de saúde no Brasil. Em sua terceira edição, o levantamento destaca-se por seu rigor metodológico estruturado a partir de amostragem domiciliar representativa, abrangendo 16.608 participantes nas cinco macrorregiões brasileiras.

