O que são as chamadas canetas emagrecedoras?
“Canetas emagrecedoras” é um nome popular para medicamentos injetáveis utilizados, conforme indicação específica, no tratamento da obesidade e de outras condições metabólicas.
Entre eles estão os agonistas do receptor de GLP-1. Esse hormônio é produzido naturalmente pelo organismo e participa do controle da glicemia, da digestão e do apetite.
Os medicamentos que atuam nesse sistema imitam ou potencializam determinados efeitos hormonais. Eles podem aumentar a sensação de saciedade e retardar o esvaziamento do estômago, o que contribui para reduzir a ingestão de alimentos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que essas terapias sejam utilizadas dentro de uma abordagem abrangente para o tratamento da obesidade, com indicação e acompanhamento profissional.
Por que surgiu a hipótese de influência sobre o consumo de álcool?
A possível relação entre canetas emagrecedoras e álcool surgiu a partir de relatos de pacientes e de pesquisas experimentais e clínicas.
Há evidências iniciais de que medicamentos que atuam no sistema GLP-1 podem influenciar circuitos cerebrais relacionados à recompensa. Esses circuitos participam de processos ligados à motivação e à busca por estímulos considerados prazerosos.
Estudos em animais já haviam identificado alterações no consumo de álcool após intervenções nesse sistema. Posteriormente, pesquisas observacionais e ensaios clínicos em humanos começaram a avaliar essa hipótese.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2025 na revista Drug and Alcohol Dependence reuniu 11 estudos sobre o tema. Os pesquisadores encontraram resultados favoráveis em alguns desfechos relacionados ao álcool. Porém, a análise conjunta não identificou redução estatisticamente significativa no consumo de bebidas alcoólicas.
Outra revisão sistemática, publicada na revista Alcohol and Alcoholism, analisou três ensaios clínicos randomizados. Os resultados variaram conforme a intervenção e o desfecho avaliado, reforçando a necessidade de estudos maiores.
Assim, as pesquisas sobre canetas emagrecedoras e álcool apresentam sinais que justificam novas investigações. Entretanto, as evidências ainda não permitem afirmar que esses medicamentos reduzam o consumo de forma consistente ou que sejam indicados para essa finalidade.
Diferença entre relatos individuais e evidências científicas
Relatos de pessoas que perceberam menos interesse por bebidas alcoólicas ajudaram a despertar a atenção para o tema. Entretanto, uma experiência individual não permite estabelecer a eficácia de um tratamento.
O consumo de álcool pode mudar por diversos motivos, incluindo alterações na alimentação, saúde, rotina e contexto social. Por isso, estudos controlados são necessários para separar possíveis efeitos dos medicamentos de outros fatores.
No caso das canetas emagrecedoras e álcool, ensaios clínicos realizados até o momento têm apresentado resultados promissores em alguns aspectos, mas ainda envolvem limitações. Revisões recentes destacam a necessidade de pesquisas maiores e mais robustas.
O que ainda não está comprovado?
As pesquisas sobre canetas emagrecedoras e álcool ainda precisam esclarecer quais pessoas poderiam apresentar mudanças no consumo, qual seria a intensidade desse possível efeito e se ele se mantém no longo prazo.
Também não está estabelecido que medicamentos dessa classe sejam tratamentos eficazes e seguros para transtornos relacionados ao uso de álcool.
Portanto, uma eventual diminuição da vontade de beber observada durante outro tratamento não deve ser interpretada como prova de uma nova indicação terapêutica.
Por que esses medicamentos não devem ser utilizados com essa finalidade sem indicação médica?
A possibilidade investigada pelos estudos não justifica o uso por conta própria. Esses medicamentos possuem indicações específicas, contraindicações e possibilidade de efeitos adversos.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, em 2025, a retenção da receita para medicamentos agonistas de GLP-1. A medida buscou reforçar o controle diante de eventos adversos relacionados ao uso fora das indicações aprovadas.
Dessa forma, a relação entre canetas emagrecedoras e álcool não deve servir de justificativa para automedicação ou uso com finalidade diferente daquela indicada pelo profissional responsável.
Importância do acompanhamento profissional
A relação entre canetas emagrecedoras e álcool reforça a importância do acompanhamento profissional durante o tratamento. Mudanças percebidas, inclusive no desejo ou no consumo de bebidas alcoólicas, devem ser informadas ao profissional de saúde responsável, que poderá avaliar o quadro considerando a indicação do medicamento e as condições individuais de cada paciente.
Quem apresenta dificuldade para controlar o consumo de álcool, mantém o uso apesar de prejuízos ou percebe impactos na saúde, nos relacionamentos e nas atividades cotidianas também deve procurar avaliação específica. O cuidado pode envolver profissionais como médicos, psiquiatras e psicólogos, além de outras áreas, conforme as necessidades identificadas.
No Sistema Único de Saúde (SUS), a Unidade Básica de Saúde (UBS) pode ser uma das portas de entrada para essa avaliação. A equipe pode realizar o acolhimento inicial, avaliar as necessidades de saúde e, quando indicado, encaminhar a pessoa para outros pontos da rede de atenção, incluindo serviços especializados em saúde mental e no cuidado relacionado ao uso de álcool e outras drogas.
Na Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) especialistas de diferentes áreas atuam no cuidado integral à saúde, incluindo endocrinologistas, psiquiatras e profissionais especializados no atendimento a pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. A avaliação individualizada permite considerar tanto as condições clínicas quanto os aspectos psicológicos e comportamentais envolvidos, contribuindo para uma abordagem mais segura e adequada.
Perguntas frequentes sobre canetas emagrecedoras e álcool
É seguro consumir álcool durante o tratamento com canetas emagrecedoras?
A segurança depende de fatores como condição de saúde, indicação do tratamento, padrão de consumo de álcool e possíveis efeitos apresentados pela pessoa. Por isso, não existe uma orientação única aplicável a todos. Quem utiliza esses medicamentos deve conversar com o profissional responsável antes de consumir bebidas alcoólicas, especialmente se apresentar sintomas ou possuir outras condições de saúde.
Sentir menos vontade de beber significa que a pessoa deixou de ter problemas com o álcool?
Não. Uma eventual redução do desejo ou do consumo de álcool não permite concluir que um transtorno relacionado ao uso de álcool tenha sido controlado ou tratado. A avaliação considera diversos aspectos, como dificuldade de controlar o consumo, consequências para a saúde e para a rotina e manutenção do uso apesar dos prejuízos. Mudanças percebidas durante outro tratamento devem ser discutidas com um profissional de saúde.
As canetas emagrecedoras podem modificar outros comportamentos relacionados à recompensa?
Essa possibilidade vem sendo investigada porque o sistema GLP-1 também está relacionado a mecanismos cerebrais envolvidos em motivação e recompensa. Entretanto, pesquisas sobre possíveis efeitos em outros comportamentos ainda estão em desenvolvimento. Os resultados não devem ser interpretados como comprovação de eficácia para tratar compulsões ou outros transtornos sem evidências e indicações específicas.
A redução do consumo de álcool observada durante o tratamento tende a permanecer depois que ele termina?
Ainda não há evidências suficientes para estabelecer se uma eventual mudança no desejo ou no consumo de álcool permanece após a interrupção do tratamento. Essa é uma das questões que estudos de maior duração precisam esclarecer. Por isso, resultados observados durante o uso do medicamento não permitem prever seus efeitos sobre o comportamento no longo prazo.
Considerações finais
A possível relação entre canetas emagrecedoras e álcool representa uma área de pesquisa em desenvolvimento. Estudos iniciais sugerem que medicamentos que atuam no sistema GLP-1 podem influenciar alguns comportamentos relacionados ao consumo, possivelmente por mecanismos ligados à recompensa cerebral.
No entanto, os resultados disponíveis ainda são heterogêneos e não permitem concluir que esses medicamentos devam ser utilizados para reduzir o consumo de álcool. Novos ensaios clínicos são necessários para esclarecer eficácia, segurança e quais pessoas poderiam se beneficiar de uma eventual aplicação futura.
Até que existam evidências mais consistentes e recomendações específicas, esses medicamentos devem permanecer vinculados às indicações reconhecidas e ao acompanhamento profissional.
Fontes Consultadas
Organização Mundial da Saúde. Obesity: GLP-1 therapies.
https://www.who.int/news-room/questions-and-answers/item/obesity-glp-1-therapies
Organização Mundial da Saúde. WHO issues global guideline on the use of GLP-1 medicines in treating obesity.
https://www.who.int/news/item/01-12-2025-who-issues-global-guideline-on-the-use-of-glp-1-medicines-in-treating-obesity
PubMed. Effects of glucagon-like peptide-1 receptor agonists on alcohol consumption: a systematic review and meta-analysis.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41324012/
PubMed. GLP-1 receptor agonists and alcohol use disorder: a systematic review.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41273789/
PubMed. Association between glucagon-like peptide-1 receptor agonists use and change in alcohol consumption: a systematic review.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39764544/
National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism. Semaglutide Shows Promise as a Potential Alcohol Use Disorder Medication.
https://www.niaaa.nih.gov/news-events/spectrum/volume-16-issue-1-winter-2024/semaglutide-shows-promise-potential-alcohol-use-disorder-medication
Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Entra em vigor norma que prevê retenção de receita para medicamentos agonistas GLP-1.
https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2025/entra-em-vigor-norma-que-preve-retencao-de-receita-para-medicamentos-agonistas-glp-1
Impacto dos agonistas do receptor do peptídeo-1 semelhante ao glucagon no consumo de álcool e nos desfechos relacionados ao fígado: uma revisão sistemática e meta-análise
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0376871625002935