Imaginar situações, criar histórias mentalmente, recordar experiências ou pensar em acontecimentos que ainda não ocorreram são atividades comuns. Em determinados momentos, deixar a mente divagar pode inclusive estar relacionado à criatividade, ao planejamento e ao processamento de experiências.
Para algumas pessoas, entretanto, as fantasias podem assumir uma intensidade diferente. Elas se tornam prolongadas, muito envolventes e difíceis de interromper, ocupando horas do dia e competindo com atividades importantes da vida cotidiana. Esse fenômeno tem sido estudado cientificamente como devaneio excessivo, também denominado devaneio desadaptativo, do inglês maladaptive daydreaming.
O tema exige cautela porque não se trata simplesmente de "imaginar demais". A literatura científica concentra a atenção principalmente no grau de envolvimento com as fantasias, na dificuldade de controlá-las e nos possíveis prejuízos ao funcionamento cotidiano.
Também é importante esclarecer que o devaneio excessivo ainda não constitui um diagnóstico psiquiátrico formalmente estabelecido nos principais sistemas classificatórios, embora pesquisadores discutam seus critérios, características clínicas e possível reconhecimento futuro como uma condição específica.
A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) considera a informação qualificada uma ferramenta importante para o cuidado em saúde mental.
O que é devaneio?
Devaneio é o deslocamento temporário da atenção para pensamentos e imagens mentais que não estão diretamente relacionados à atividade realizada naquele momento.
Isso pode acontecer durante situações corriqueiras. Uma pessoa pode imaginar uma viagem enquanto está no transporte público, pensar em uma conversa futura durante uma caminhada ou construir mentalmente uma história antes de dormir.
Por si só, esse comportamento não representa uma doença.
A imaginação e a divagação mental fazem parte da experiência humana. Por isso, a frequência com que alguém fantasia não é suficiente para concluir que exista um problema de saúde mental.
A questão muda quando as fantasias se tornam tão absorventes que a pessoa encontra dificuldade para interrompê-las e começa a dedicar a elas um tempo que interfere em outras atividades importantes.
O que é devaneio excessivo?
O devaneio excessivo é descrito na literatura científica como um padrão de fantasias imersivas, elaboradas e persistentes, associado a dificuldade de controle e potencial sofrimento ou prejuízo funcional.
Essas fantasias podem apresentar personagens, cenários, acontecimentos e narrativas detalhadas. Algumas pessoas relatam histórias internas complexas que continuam ao longo do tempo, quase como universos imaginários recorrentes.
O aspecto central, entretanto, não está simplesmente na riqueza da imaginação.
Uma pessoa pode ser altamente criativa e passar bastante tempo imaginando histórias sem apresentar prejuízo. No devaneio excessivo, a preocupação surge quando existe uma combinação de fatores como dificuldade para controlar a atividade, forte necessidade de retornar às fantasias e interferência na rotina.
Em outras palavras, não é o ato de fantasiar que caracteriza o problema, mas a relação que a pessoa estabelece com essas fantasias e as consequências que elas produzem.
Devaneio excessivo é uma doença?
Atualmente, é mais adequado tratar o devaneio excessivo como um fenômeno psicológico em investigação científica, e não como um diagnóstico estabelecido.
O estudo “O que se sabe sobre devaneios desadaptativos? Uma revisão de escopo”, uma revisão de escopo recente, reuniu 89 estudos e identificou avanços na caracterização do fenômeno, em sua avaliação e nas pesquisas sobre condições associadas. Ao mesmo tempo, os autores apontaram limitações importantes na literatura e a necessidade de mais estudos longitudinais, clínicos e sobre intervenções.
Existem pesquisadores que defendem seu reconhecimento como uma condição clínica específica e propostas de critérios para diferenciá-lo de outros fenômenos psicológicos. Entretanto, esse debate permanece em desenvolvimento.
Essa distinção é importante porque evita dois erros.
O primeiro é considerar qualquer pessoa que fantasia frequentemente como alguém com um transtorno mental. O segundo é ignorar o sofrimento de quem percebe que as fantasias se tornaram difíceis de controlar e estão prejudicando sua vida.
Mesmo sem um diagnóstico formal específico, sofrimento e prejuízo funcional são motivos legítimos para procurar avaliação profissional.
Por que algumas pessoas passam tanto tempo em fantasias?
Essa questão ainda está sendo investigada e não existe uma única causa comprovada para o devaneio excessivo.
Uma das hipóteses discutidas na literatura é que, para algumas pessoas, as fantasias possam funcionar como uma estratégia de regulação emocional ou como uma forma de afastamento temporário de experiências desagradáveis.
O universo imaginado pode proporcionar sensações de recompensa, controle, conforto ou realização que nem sempre estão disponíveis naquele momento na vida cotidiana.
Isso não significa que todas as pessoas utilizem os devaneios pelo mesmo motivo.
Uma metanálise publicada em 2025, intitulada “Devaneio desadaptativo e psicopatologia: uma metanálise” encontrou associações entre devaneio excessivo e diferentes manifestações psicológicas, incluindo ansiedade, depressão, dissociação, sintomas obsessivos compulsivos, dificuldades relacionadas à atenção, experiências traumáticas, solidão e problemas de regulação emocional.
Esses resultados precisam ser interpretados corretamente. Uma associação não demonstra que uma condição cause a outra.
Não é possível afirmar, por exemplo, que ansiedade necessariamente provoque devaneio excessivo ou que uma pessoa com esse padrão apresente obrigatoriamente outro transtorno mental.
Devaneio excessivo é o mesmo que TDAH?
Não. Embora pesquisas tenham encontrado associação entre devaneio excessivo e sintomas relacionados ao transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), são fenômenos diferentes.
Uma pessoa muito envolvida em fantasias pode apresentar dificuldade para manter a atenção em tarefas externas, o que pode ser percebido como distração. Entretanto, problemas de concentração podem ocorrer por diversos motivos e não são suficientes para caracterizar TDAH.
Também não é adequado concluir que o devaneio excessivo seja uma manifestação desse transtorno. Quando sintomas de desatenção, impulsividade ou outras alterações estão presentes, cabe ao profissional avaliar sua duração, contexto, impacto funcional e histórico.
Quais impactos o devaneio excessivo pode causar?
O impacto varia conforme a intensidade, a frequência e, principalmente, a interferência das fantasias no funcionamento cotidiano.
A revisão científica publicada em 2025 caracteriza o fenômeno pela presença de devaneios excessivos e difíceis de controlar associados a prejuízo importante na vida.
Entre as possíveis consequências, estão:
- dificuldade para manter a concentração em tarefas;
- adiamento de responsabilidades;
- redução do rendimento acadêmico ou profissional;
- alterações na rotina de sono;
- afastamento de atividades sociais;
- dificuldade para interromper as fantasias mesmo quando necessário;
- sofrimento relacionado ao tempo dedicado aos devaneios;
- sensação de perda de controle sobre o comportamento.
Essas manifestações não precisam ocorrer simultaneamente. O elemento de maior importância é perceber se o padrão está comprometendo atividades importantes ou causando sofrimento.
Quando o devaneio excessivo merece avaliação profissional?
Não existe necessidade de procurar atendimento simplesmente porque uma pessoa gosta de imaginar histórias ou passa determinados períodos absorta em pensamentos.
A avaliação torna-se importante quando existe prejuízo funcional ou sofrimento significativo.
Alguns sinais que merecem atenção incluem:
- passar períodos prolongados fantasiando e ter dificuldade para interrompê-los;
- deixar responsabilidades de lado repetidamente para continuar os devaneios;
- apresentar prejuízo nos estudos ou no trabalho;
- reduzir o convívio social para permanecer nas fantasias;
- perceber alterações importantes no sono ou na rotina;
- sentir angústia, culpa ou frustração pela dificuldade de controlar os episódios;
- utilizar as fantasias de maneira recorrente para evitar situações ou emoções difíceis;
- apresentar simultaneamente outros sintomas psicológicos que causem sofrimento.
Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma uma condição específica. A avaliação profissional permite compreender o contexto e verificar se existem outros fatores associados.
Existe tratamento para o devaneio excessivo?
As pesquisas sobre intervenções específicas ainda são limitadas. Uma revisão de escopo de 2025 apontou justamente a necessidade de ampliar os estudos sobre estratégias terapêuticas e sua efetividade.
Até o momento, não há um tratamento específico para o devaneio excessivo cuja eficácia esteja estabelecida por evidências robustas.
Quando há sofrimento ou prejuízo funcional, o acompanhamento em saúde mental pode ajudar a identificar situações que favorecem os episódios, compreender a função das fantasias e desenvolver estratégias para lidar com emoções, comportamentos e dificuldades presentes na rotina.
Também é importante investigar possíveis condições associadas. Se houver ansiedade, depressão, dificuldades relacionadas à atenção ou outros sintomas clinicamente relevantes, essas manifestações precisam ser avaliadas individualmente.
O objetivo do cuidado não é eliminar a imaginação ou impedir que a pessoa tenha fantasias, mas reduzir o sofrimento e recuperar o equilíbrio entre a vida imaginativa e as atividades cotidianas.
Considerações finais
Imaginar, fantasiar e construir histórias mentalmente são experiências humanas comuns. Portanto, uma vida imaginativa intensa não deve ser automaticamente interpretada como sinal de transtorno mental.
No devaneio excessivo, a questão central é outra: as fantasias podem assumir um caráter persistente e difícil de controlar, acompanhado de sofrimento e prejuízos importantes para determinadas pessoas. A literatura científica sobre o tema avançou nos últimos anos, mas ainda existem questões relevantes sobre classificação, mecanismos psicológicos e estratégias terapêuticas.
Por isso, informação responsável exige evitar tanto a banalização quanto o autodiagnóstico. Quando o envolvimento com fantasias interfere significativamente na rotina ou está associado a sofrimento emocional, uma avaliação em saúde mental pode ajudar a compreender o quadro e identificar necessidades individuais de cuidado.
A SPDM conta com uma rede de serviços de Psiquiatria e Saúde Mental e reforça a importância da informação qualificada para ampliar o reconhecimento do sofrimento psíquico e orientar a busca por um cuidado adequado.
Fontes Consultadas
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PubMed: What Is Known About Maladaptive Daydreaming?
Somer E, Herscu O, Samara M, Abu-Rayya HM. Maladaptive Daydreaming and Psychopathology: A Meta-Analysis. International Journal of Psychology. 2025. Meta análise de 40 estudos, com 24.977 participantes, sobre as associações entre devaneio desadaptativo e diferentes manifestações psicológicas. Disponível em:
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Soffer-Dudek N, Somer E, Spiegel D, et al. Maladaptive daydreaming should be included as a dissociative disorder in psychiatric manuals: position paper. British Journal of Psychiatry. 2025. Artigo que discute características clínicas e a proposta de reconhecimento do fenômeno nos sistemas diagnósticos. Disponível em:
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PubMed: When imagination turns into disorder
BBC News Brasil. Mundo paralelo: as pessoas viciadas em sonhar acordadas. Disponível em: