Maconha e saúde mental: mitos, riscos e quando procurar ajuda

A relação entre maconha e saúde mental é tema frequente em debates públicos, científicos e clínicos. O aumento da circulação de informações sobre a substância, nem sempre baseadas em evidências, contribui para dúvidas sobre seus efeitos reais no cérebro e no comportamento.

Embora algumas pessoas percebam efeitos subjetivos de relaxamento, isso não significa ausência de riscos. O uso de maconha pode estar associado a alterações cognitivas, piora de sintomas psiquiátricos e desenvolvimento de transtornos relacionados ao uso da substância, especialmente em grupos mais vulneráveis.

Com mais de 90 anos de história dedicados à promoção da vida, a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) reforça a importância da informação qualificada e da prevenção em saúde mental. Entender mitos, riscos e sinais de alerta é fundamental para decisões mais seguras e busca precoce por ajuda quando necessário.

O que é a maconha e como ela atua no organismo?

A maconha é uma substância psicoativa classificada como perturbadora do sistema nervoso central. Ela é derivada da planta Cannabis e contém compostos químicos, como o Tetrahidrocanabinol (THC) que atuam no sistema endocanabinoide do organismo, responsável por regular funções como memória, humor, percepção, apetite e resposta ao estresse.

Seus efeitos variam conforme a composição da substância, a frequência de uso, a idade de início, as características individuais e a presença de transtornos mentais prévios. Por isso, o impacto do uso não é igual para todas as pessoas.

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Maconha e saúde mental: principais riscos

A relação entre maconha e saúde mental é complexa e depende do contexto clínico. Ainda assim, estudos científicos apontam associações relevantes que merecem atenção.

Ansiedade e pânico

Em algumas pessoas, o uso pode desencadear ansiedade intensa, medo e crises de pânico, principalmente em doses elevadas ou em contextos que geram tensão.

Prejuízo de memória e atenção

O consumo pode afetar a memória recente, concentração, velocidade de processamento e desempenho acadêmico ou profissional. Quando o uso é frequente, esses impactos tendem a ser mais significativos.

Dependência e perda de controle

Embora muitas pessoas acreditem no contrário, a maconha pode levar ao transtorno por uso de cannabis, caracterizado por dificuldade de reduzir consumo, compulsão e prejuízo funcional.

Psicose e vulnerabilidade psiquiátrica

Há evidências de associação entre uso frequente, especialmente precoce e intenso, e maior risco de sintomas psicóticos em indivíduos suscetíveis. Isso inclui delírios, alucinações e desorganização do pensamento.

Adolescência e cérebro em desenvolvimento

O consumo de maconha, especialmente durante a adolescência, está associado a um maior risco de alterações cognitivas persistentes. Nessa fase, o cérebro ainda está em desenvolvimento e passa por processos importantes de maturação

Quem pode apresentar maior risco?

Alguns grupos exigem atenção especial:

  • adolescentes e jovens adultos;
  • pessoas com histórico familiar de psicose;
  • indivíduos com ansiedade ou depressão prévias;
  • usuários frequentes ou de alta potência;
  • pessoas que combinam múltiplas substâncias.


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Mitos e verdades sobre maconha e saúde mental

Maconha faz mal para todo mundo da mesma forma

Mito. Os efeitos variam conforme fatores individuais, como genética, idade, teor de THC, frequência de uso e condições de saúde mental.

Pode piorar ansiedade em algumas pessoas

Verdade. Pode desencadear ou intensificar ansiedade, medo, sensação de perseguição e até crises de pânico, especialmente em doses elevadas ou em pessoas mais vulneráveis.

Uso precoce merece maior atenção

Verdade. O cérebro jovem está em desenvolvimento e pode ser mais vulnerável.

Se é natural, não oferece risco

Mito: O fato de ser de origem natural não significa que seja inofensiva. A maconha contém substâncias psicoativas que atuam no sistema nervoso central e podem causar efeitos adversos, especialmente quando usada com frequência, em altas concentrações ou em fases mais vulneráveis, como a adolescência.

O que mostram os dados brasileiros?

A cannabis permanece como a substância psicoativa mais consumida no Brasil. Dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD) mostram que, em 2023, cerca de um a cada seis brasileiros com 14 anos ou mais relatou uso de cannabis ou produtos à base do mesmo princípio ativo alguma vez na vida, o que corresponde a aproximadamente 28 milhões de pessoas. A estimativa de uso recente é de cerca de 6% da população, equivalente a mais de 10 milhões de brasileiros, com maior concentração entre jovens adultos, grupo considerado mais vulnerável aos impactos da substância sobre memória, atenção, aprendizado e saúde mental.

Entre os efeitos psíquicos relatados pelos usuários, destacaram-se: sedação e lentificação psicomotora; sensação de perseguição ou paranóia; crises de ansiedade e pânico; alterações de memória e atenção; mudanças importantes de humor.

Em menor proporção, também foram descritos sintomas mais graves, como delírios, alucinações e ideação suicida, especialmente em indivíduos mais vulneráveis.

Outro ponto importante destacado pelo estudo é que os efeitos da maconha não dependem apenas da frequência de uso, mas também da concentração de THC, principal substância psicoativa da cannabis. Produtos com maior potência tendem a estar associados a maior risco de efeitos adversos psiquiátricos e cognitivos.

Quando procurar ajuda?

Buscar avaliação profissional é importante quando o uso da maconha começa a afetar saúde mental, relações ou rotina.

Sinais de alerta incluem:

  • dificuldade para reduzir ou interromper consumo;
  • ansiedade frequente após uso;
  • queda no rendimento escolar ou profissional;
  • isolamento social;
  • irritabilidade sem uso;
  • alterações de memória e atenção;
  • sintomas paranoides ou perceptivos incomuns.

A SPDM destaca que procurar ajuda precocemente aumenta as chances de recuperação e reorganização da rotina.

Como é o tratamento?

A avaliação psiquiátrica é fundamental para identificar possíveis complicações clínicas e psíquicas relacionadas ao uso de maconha, além de investigar a presença de outros transtornos mentais associados. A partir dessa análise, é possível definir as condutas terapêuticas mais adequadas, que podem incluir o uso de medicamentos (farmacoterapia) e o encaminhamento para psicoterapia.

O tratamento varia conforme a intensidade do uso, os sintomas apresentados e as condições clínicas coexistentes. A abordagem pode envolver acompanhamento médico, suporte psicológico, estratégias de prevenção de recaídas e manejo de transtornos mentais associados.

Nos casos de dependência, o foco está na recuperação funcional e na reconstrução de hábitos saudáveis. O cuidado deve ser individualizado, contínuo e orientado às necessidades de cada pessoa.

Perguntas frequentes sobre maconha e saúde mental

Toda pessoa que usa maconha terá problema mental?

Não. Nem todos os usuários desenvolvem transtornos, mas o risco é maior em pessoas mais vulneráveis, especialmente com uso frequente ou precoce.

Maconha pode causar crise de ansiedade?

Sim. Em algumas pessoas, o consumo pode desencadear ansiedade intensa, sensação de pânico ou desconforto emocional.

Quem tem depressão pode piorar?

Pode. Os efeitos variam de pessoa para pessoa, mas, em alguns casos, o uso pode agravar sintomas depressivos.

Parar de usar ajuda a melhorar a memória?

Em muitos casos, sim. A interrupção do uso, associada a acompanhamento adequado, pode trazer melhora parcial ou significativa da memória.

Vale buscar ajuda mesmo sem dependência?

Sim. Sempre que houver impacto emocional, cognitivo ou na rotina, é recomendável procurar avaliação profissional

Considerações finais

O uso de maconha não afeta todas as pessoas da mesma forma, mas pode trazer riscos, especialmente em determinados contextos. Informar-se e buscar orientação quando necessário são passos importantes para cuidar da saúde mental.

A SPDM conta com uma rede de Psiquiatria voltada ao cuidado em saúde mental. Um exemplo é o Complexo de Cuidados Relacionados à Dependência Química, composto pelas unidades HUB de Cuidados em Crack e outras Drogas e a Unidade Recomeço Helvétia, que oferecem atendimento especializado a pessoas com dependência química encaminhadas por Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), hospitais, entre outros pontos da rede de saúde.

Fontes Consultadas 

World Health Organization. Cannabis. Disponível em:https://www.who.int/teams/mental-health-and-substance-use/alcohol-drugs-and-addictive-behaviours/drugs-psychoactive/cannabis 

United Nations Office on Drugs and Crime. World Drug Report 2024. Disponível em: https://www.unodc.org/unodc/en/data-and-analysis/world-drug-report-2024.html 

National Institute on Drug Abuse. Cannabis DrugFacts, atualizado. Disponível em: https://nida.nih.gov/research-topics/cannabis-marijuana

Gobbi G, Atkin T, Zytynski T et al. Association of cannabis use in adolescence and risk of depression, anxiety, and suicidality in young adulthood. JAMA Psychiatry, 2019. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/fullarticle/2723657 

Caderno Temático LENAD III UNIFESP 2025 - Consumo de Cannabis e outras Substâncias Psicoativas na População Brasileira | Disponível em: https://lenad.uniad.org.br/resultados/lenad-iii-consumo-de-cannabis-e-spa-exat/ 

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