Os dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), popularmente conhecidos como vapes, pods ou cigarros eletrônicos, ganharam espaço principalmente entre adolescentes e adultos jovens. O design moderno, os sabores variados e a ampla divulgação nas redes sociais contribuíram para a popularização desses produtos, muitas vezes associados, de forma equivocada, a uma alternativa mais segura ao cigarro convencional.
No Brasil, a fabricação, importação, comercialização, distribuição e propaganda desses dispositivos permanecem proibidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que fundamenta essa decisão nas evidências científicas sobre seus riscos à saúde e na necessidade de proteger a população, especialmente os jovens.
A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) reforça a importância do acesso à informação baseada em evidências para conscientizar a população sobre os impactos do cigarro eletrônico. Embora sejam relativamente recentes, esses dispositivos já estão associados ao desenvolvimento de dependência de nicotina, doenças respiratórias e alterações cardiovasculares.
Neste artigo, você entenderá como o vape funciona, quais são seus principais efeitos sobre o organismo e quem apresenta maior risco de complicações.
O que é o vape?
O vape é um dispositivo eletrônico que aquece um líquido para produzir um aerossol inalado pelo usuário. Esse líquido pode conter nicotina, aromatizantes, solventes e outras substâncias químicas, cuja composição varia de acordo com o fabricante e o modelo utilizado.
Ao contrário do cigarro convencional, o vape não promove a combustão do tabaco. No entanto, isso não significa que seja isento de riscos. Durante o aquecimento, diferentes compostos químicos podem sofrer transformações e gerar substâncias potencialmente tóxicas, capazes de atingir principalmente os pulmões e o sistema cardiovascular.
Existem diferentes tipos de dispositivos, como descartáveis, recarregáveis e modelos com cápsulas substituíveis. Apesar das diferenças de formato, todos têm como objetivo simular o ato de fumar por meio da inalação de aerossóis.
Por que o vape se popularizou?
O crescimento do uso dos dispositivos eletrônicos para fumar tem sido observado principalmente entre adolescentes e adultos jovens. Entre os fatores que contribuíram para essa expansão estão a grande variedade de sabores, o design moderno, a facilidade de transporte e a divulgação em ambientes digitais, que frequentemente associam o vape a uma alternativa menos prejudicial do que o cigarro convencional. No entanto, essa percepção não é sustentada pelas evidências científicas.
Dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) mostram que 11,4% dos adolescentes brasileiros já experimentaram cigarros eletrônicos, enquanto 76,3% daqueles que experimentaram continuam utilizando os dispositivos, indicando elevado potencial de continuidade do consumo e desenvolvimento de dependência. O levantamento teve a supervisão da Dra. Clarice Madruga, pesquisadora e coordenadora do LENAD III.
Esses resultados reforçam a preocupação dos profissionais de saúde, uma vez que muitos usuários iniciam o consumo de nicotina por meio do vape, sem histórico prévio de uso do cigarro convencional. Além disso, estudos apontam que a elevada concentração de nicotina presente em muitos dispositivos favorece o desenvolvimento precoce da dependência.
Como o vape afeta o organismo?
Os efeitos do cigarro eletrônico dependem da frequência de uso, da concentração de nicotina, da composição do líquido inalado e das características individuais de cada pessoa. As evidências científicas demonstram que a exposição repetida ao aerossol pode provocar inflamação, alterações celulares e danos em diferentes órgãos, especialmente no sistema respiratório e cardiovascular.
Pulmões
Os pulmões são os órgãos mais diretamente expostos ao aerossol produzido pelos dispositivos eletrônicos. O uso frequente pode provocar irritação das vias respiratórias, inflamação pulmonar, redução da função respiratória e agravamento de doenças respiratórias já existentes. Também há registros de EVALI (lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos), condição que pode variar de quadros leves até insuficiência respiratória grave.
Sistema cardiovascular
Grande parte dos cigarros eletrônicos contém nicotina, substância que aumenta a frequência cardíaca, eleva a pressão arterial e sobrecarrega o sistema cardiovascular. Além disso, pesquisas investigam o papel de outros compostos presentes no aerossol na indução de processos inflamatórios e estresse oxidativo, mecanismos relacionados ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
Dependência de nicotina
Um dos principais riscos do vape é a rápida instalação da dependência. Após a inalação, a nicotina alcança rapidamente o cérebro e estimula áreas relacionadas à sensação de prazer e recompensa. Com o uso contínuo, o organismo passa a exigir doses cada vez maiores da substância, favorecendo o desenvolvimento da dependência química, especialmente entre adolescentes e adultos jovens.
Quem apresenta maior risco de complicações?
Embora o cigarro eletrônico possa causar danos em qualquer faixa etária, alguns grupos apresentam maior vulnerabilidade às suas consequências, entre eles:
- adolescentes;
- adultos jovens;
- gestantes;
- pessoas com doenças respiratórias;
- indivíduos com doenças cardiovasculares;
- usuários que também fumam cigarro convencional.
Na adolescência, os riscos merecem atenção especial porque o cérebro ainda está em desenvolvimento. A exposição precoce à nicotina pode comprometer processos relacionados à aprendizagem, memória, atenção e controle do comportamento, além de favorecer o estabelecimento da dependência em idade cada vez mais precoce. Diversos estudos também indicam que muitos jovens iniciam o consumo de nicotina por meio do vape, sem histórico prévio de uso do cigarro convencional.
Tratamento da dependência do vape
A interrupção do uso do cigarro eletrônico é a medida mais importante para reduzir a exposição contínua à nicotina e às demais substâncias presentes no aerossol. Como a dependência pode variar de intensidade entre os usuários, o tratamento deve ser individualizado e considerar o padrão de consumo, a presença de sintomas físicos e o impacto do hábito na rotina.
O acompanhamento pode incluir avaliação médica, orientação para cessação do tabagismo, apoio psicológico e, quando indicado, tratamento para dependência de nicotina. A combinação dessas estratégias aumenta as chances de abandonar o uso do vape e prevenir recaídas.
É importante destacar que os cigarros eletrônicos não são aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como tratamento para parar de fumar. Apesar de alguns estudos investigarem esse uso, as evidências disponíveis não demonstram benefício consistente, e esses dispositivos podem manter ou até intensificar a dependência da nicotina.
VEJA TAMBÉM: Cigarros eletrônicos e tabagismo no Brasil: dados do III LENAD sobre o uso de nicotina
Quando procurar atendimento?
A avaliação médica é recomendada sempre que surgirem sintomas persistentes após o uso do cigarro eletrônico ou quando houver dificuldade para interromper o consumo.
Entre os principais sinais de alerta estão:
- falta de ar ou dificuldade para respirar;
- tosse persistente;
- chiado no peito;
- dor no peito;
- palpitações;
- febre acompanhada de sintomas respiratórios;
- tonturas frequentes.
Na rede pública, o acesso aos serviços administrados pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) ocorre por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). O primeiro passo é procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS), onde a equipe realizará a avaliação clínica e, quando necessário, fará o encaminhamento para ambulatórios especializados, serviços de pneumologia, programas de cessação do tabagismo ou atendimento em saúde mental, conforme a necessidade de cada paciente.
Considerações finais
Embora muitas pessoas associem o vape a uma alternativa menos prejudicial do que o cigarro convencional, as evidências científicas demonstram que esses dispositivos também oferecem riscos à saúde. A presença de nicotina e de outras substâncias químicas pode favorecer o desenvolvimento da dependência e contribuir para alterações respiratórias e cardiovasculares, especialmente entre adolescentes e adultos jovens.
Nesse contexto, a SPDM atua na promoção da saúde e na prevenção das doenças relacionadas ao tabagismo, oferecendo assistência integrada por meio de hospitais, ambulatórios e serviços especializados vinculados ao SUS. Além do atendimento aos pacientes, a instituição desenvolve ações permanentes de educação em saúde, incentivando a adoção de hábitos saudáveis e a conscientização sobre os riscos do cigarro eletrônico.
Pessoas que utilizam vape e desejam interromper o consumo ou apresentam sintomas relacionados ao seu uso devem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Quando necessário, poderão ser encaminhadas para os serviços especializados da rede SUS, garantindo acompanhamento adequado e cuidado multiprofissional.
Fontes consultadas
- Revista Pesquisa FAPESP. Levantamento registra alta adesão de jovens aos vapes. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/levantamento-registra-alta-adesao-de-jovens-aos-vapes/
- SciELO. Electronic cigarettes: emerging challenges in cessation and dependence management. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/nt43DRmzzjXSwvhzXcJTwZn/?lang=en
- SPDM | Cigarros eletrônicos e tabagismo no Brasil: dados do III LENAD sobre o uso de nicotina | Disponível em: https://spdm.org.br/blogs/blogs-saude-mental-uso-de-nicotina-tabagismo-e-cigarros-eletronicos-lenad/