Presenteísmo: por que tantos profissionais continuam trabalhando mesmo doentes?

O que é presenteísmo?

Na literatura científica, o presenteísmo costuma ser definido como trabalhar apesar de estar doente ou apresentar uma condição de saúde que justificaria afastamento ou redução das atividades.

O conceito também aparece associado à perda de capacidade produtiva provocada por problemas de saúde. Nesse contexto, o trabalhador comparece ao trabalho, mas pode ter dificuldades para manter concentração, ritmo e qualidade habituais.

Isso pode acontecer diante de doenças físicas, condições crônicas, fadiga ou sofrimento emocional. Portanto, não se trata simplesmente de falta de comprometimento ou motivação.

Uma revisão sistemática publicada no PubMed identificou que fatores individuais e organizacionais aparecem associados ao fenômeno. Entre eles estão demandas elevadas, estresse, insegurança no emprego e baixo suporte no ambiente profissional.

Diferença entre presenteísmo e absenteísmo

Embora estejam relacionados à saúde ocupacional, presenteísmo e absenteísmo representam situações diferentes.

No absenteísmo, o profissional não comparece ao trabalho. Isso pode ocorrer por doença e outros motivos. No presenteísmo, ele permanece trabalhando apesar de uma condição que pode comprometer seu bem-estar ou sua capacidade funcional.

Essa diferença ajuda a compreender por que indicadores de faltas não mostram, isoladamente, todas as repercussões da saúde sobre uma equipe. Uma pessoa pode manter frequência regular e, ainda assim, enfrentar dificuldades relevantes durante a jornada.

Por que os profissionais continuam trabalhando mesmo quando não estão bem?

As razões são variadas. Por isso, atribuir o problema apenas ao comportamento do trabalhador simplifica um fenômeno complexo.

Cultura de produtividade e pressão

Ambientes marcados por excesso de demandas, prazos difíceis e jornadas extensas podem favorecer situações nas quais o profissional sente que precisa continuar trabalhando.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a carga excessiva, o pouco controle sobre o trabalho, a insegurança profissional e o apoio insuficiente como riscos psicossociais relevantes.

No Brasil, a atualização da NR-1 reforça essa perspectiva ao incorporar expressamente os riscos psicossociais relacionados ao trabalho e ao gerenciamento de riscos ocupacionais.


VEJA TAMBÉM: Burnout em profissionais da saúde: como identificar e prevenir

Medo de perder o emprego ou prejudicar a equipe

A insegurança profissional pode influenciar a decisão de trabalhar doente. O receio de sobrecarregar colegas também aparece na literatura sobre presenteísmo.

Uma revisão sobre trabalho durante doenças infecciosas encontrou motivos ligados às políticas organizacionais, dificuldade de substituição, demandas profissionais, preocupação com colegas e questões financeiras.

Esses achados representam associações observadas em estudos e não significam que todos os trabalhadores apresentem as mesmas motivações.

Impactos na produtividade, concentração e qualidade do trabalho

Problemas de saúde podem interferir em capacidades importantes para diversas atividades profissionais. Atenção, memória, tomada de decisão e disposição física podem ser afetadas, dependendo da condição e de sua intensidade.

A OMS destaca que problemas de saúde mental podem reduzir produtividade, desempenho e capacidade de trabalhar com segurança. As consequências variam conforme o trabalhador, a atividade desempenhada e o contexto.

Assim, o presenteísmo também deve ser analisado sob a perspectiva da segurança e da organização do trabalho, especialmente em funções que exigem atenção constante.

Possíveis consequências para a saúde

Continuar trabalhando durante um problema de saúde não produz necessariamente as mesmas consequências para todas as pessoas. Entretanto, pesquisas longitudinais indicam associação entre presenteísmo por doença e alguns desfechos negativos posteriores de saúde.

É importante interpretar essa relação com cautela. O fenômeno pode coexistir com jornadas extensas, alta carga de trabalho e outras condições que também influenciam a saúde.

Quando sintomas físicos ou emocionais persistem, pioram ou interferem nas atividades diárias, a avaliação de um profissional de saúde pode ser necessária.

Como empresas podem identificar e lidar com o problema?

Identificar o presenteísmo exige olhar além das faltas. A abordagem organizacional pode incluir:

  • avaliar cargas, jornadas e organização das atividades;
  • criar canais seguros para comunicação sobre dificuldades;
  • capacitar lideranças para reconhecer riscos psicossociais;
  • revisar práticas que desencorajem afastamentos necessários;
  • promover medidas de prevenção e acompanhamento em saúde ocupacional.

A OMS recomenda intervenções organizacionais voltadas aos fatores psicossociais, incluindo ajustes de carga, horários, comunicação e trabalho em equipe.

Importância de uma cultura organizacional que valorize saúde e bem-estar

Combater o presenteísmo não significa incentivar afastamentos indiscriminados. Significa criar condições para que decisões relacionadas à saúde sejam tomadas de forma responsável e segura.

Lideranças têm papel importante nesse processo. Uma cultura que normaliza trabalhar adoecido pode dificultar a comunicação sobre limitações e necessidades de cuidado.

Ao mesmo tempo, ações isoladas voltadas apenas ao indivíduo podem ser insuficientes quando existem fatores organizacionais envolvidos. A prevenção deve considerar carga de trabalho, autonomia, apoio, relações profissionais e condições adequadas para realizar as atividades.

No Brasil, a atualização da NR-1 reforça essa perspectiva ao incorporar expressamente os riscos psicossociais relacionados ao trabalho e ao gerenciamento de riscos ocupacionais.

Quando buscar ajuda ou aprofundar o assunto?

Sintomas persistentes, sofrimento emocional intenso, alterações importantes de sono, dificuldade frequente de concentração ou redução significativa da capacidade para atividades cotidianas merecem atenção profissional.

O trabalhador pode procurar os serviços de saúde disponíveis e, quando pertinente, os setores responsáveis pela saúde ocupacional de sua organização. A avaliação individual permite compreender os sintomas e definir a orientação adequada para cada situação.

A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) atua na gestão de serviços de saúde em diferentes áreas de assistência, contribuindo para ampliar o acesso ao cuidado e à avaliação por equipes multiprofissionais. Diante de alterações físicas ou emocionais que interferem no cotidiano, buscar atendimento em um serviço de saúde é um passo importante para receber orientação adequada e, quando necessário, iniciar o acompanhamento indicado.

Perguntas frequentes sobre presenteísmo

O presenteísmo também pode acontecer no trabalho remoto?

Sim. O presenteísmo não depende da presença física no escritório. No trabalho remoto, o profissional também pode continuar desempenhando suas atividades mesmo quando está doente ou sem condições adequadas para trabalhar. Em alguns casos, a possibilidade de trabalhar de casa pode até tornar menos evidente a necessidade de interromper as atividades para cuidar da saúde.

Presenteísmo é o mesmo que falta de engajamento no trabalho?

Não. Uma pessoa pode estar comprometida com suas responsabilidades e, ainda assim, apresentar redução temporária da capacidade de trabalho devido a uma condição de saúde. O presenteísmo está relacionado ao ato de continuar trabalhando apesar de estar doente, enquanto problemas de engajamento podem envolver fatores como motivação, satisfação, identificação com as atividades e condições organizacionais.

Como o presenteísmo pode ser medido pelas organizações?

A mensuração é mais complexa do que simplesmente contabilizar faltas, porque o trabalhador permanece em atividade. Pesquisas e avaliações de saúde ocupacional podem considerar informações como condições de saúde, limitações para executar determinadas tarefas e percepção sobre a capacidade de trabalho. Esses dados devem ser analisados de forma responsável, preservando a confidencialidade das informações de saúde e evitando interpretações isoladas.

Trabalhar em casa quando se está doente sempre evita o presenteísmo?

Não. O trabalho remoto pode ser adequado em determinadas situações, mas não substitui automaticamente a necessidade de repouso ou afastamento quando a condição de saúde exige. Transferir as atividades do ambiente presencial para casa enquanto a pessoa continua sem condições adequadas para trabalhar pode apenas mudar a forma como o presenteísmo acontece.

 

Considerações finais

O presenteísmo mostra que comparecimento e capacidade para trabalhar não são sinônimos. Uma pessoa pode estar presente e, ao mesmo tempo, enfrentar limitações decorrentes de problemas físicos ou emocionais.

Compreender o fenômeno requer considerar tanto aspectos individuais quanto condições e relações de trabalho. Empresas podem contribuir ao reconhecer riscos psicossociais, aprimorar a organização das atividades e fortalecer uma cultura na qual saúde e segurança façam parte da gestão cotidiana.

Para o trabalhador, reconhecer alterações persistentes e buscar avaliação quando necessário é uma medida importante de cuidado. Para as organizações, prevenir o problema significa observar não apenas quem falta, mas também as condições nas quais as pessoas permanecem trabalhando.

Fontes Consultadas

Organização Mundial da Saúde. Guidelines on mental health at work.
https://www.who.int/publications/i/item/9789240053052

Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 1: Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselhos-e-orgaos-colegiados/comissao-tripartite-partitaria-permanente/normas-regulamentadora/normas-regulamentadoras-vigentes/nr-1

 

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