O que é hiperfoco e por que o termo não deve ser banalizado

Pessoa de óculos analisando gráficos em um computador no escritório.

O hiperfoco é um estado de atenção profunda, sustentada e involuntária, observado principalmente em pessoas neurodivergentes, como indivíduos com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Ele não significa apenas gostar muito de um assunto ou passar horas envolvido em um hobby. Trata-se de um fenômeno cognitivo complexo, com base neurobiológica, que altera a capacidade de perceber o tempo, necessidades fisiológicas e demandas externas.

O termo se popularizou nas redes sociais, mas seu uso banalizado distorce um processo real e pode gerar interpretações equivocadas sobre o funcionamento cognitivo de pessoas neurodivergentes.

Definição científica de hiperfoco

Hiperfoco é um estado de atenção altamente concentrada, mantido por longos períodos de maneira involuntária e pouco flexível.

Nele, a pessoa direciona seus recursos cognitivos para um estímulo específico, deixando em segundo plano aspectos básicos, como fome, sede, sono e interrupções ambientais.

Esse fenômeno difere de uma concentração intensa voluntária porque não decorre de decisão consciente.

No hiperfoco, há dificuldade de desengajar da atividade, mesmo quando seria adequado mudar de tarefa, descansar ou atender outra demanda.

Como o hiperfoco ocorre no cérebro

Estudos em neurociência sugerem que o hiperfoco envolve alterações no funcionamento de redes cerebrais que regulam atenção, prioridade de estímulos e alternância entre tarefas cognitivas.

Três redes principais participam desse processo:

  • rede de modo padrão: ligada a devaneios, memória autobiográfica e atividades mentais internas;
  • rede de controle executivo: responsável pela atenção dirigida, tomada de decisão e resolução de problemas;
  • rede de saliência: atua como sistema de triagem, identificando estímulos relevantes e determinando quando o cérebro deve alternar entre repouso e ação focada.

No hiperfoco, a rede de saliência estimula de forma intensa a rede de controle executivo, mantendo a atenção presa ao estímulo selecionado e inibindo a alternância para outras funções, o que explica a perda de noção do tempo e a redução da percepção de necessidades fisiológicas.

Essa dinâmica é particularmente observada em condições neurodivergentes.

No Transtorno do Espectro Autista, o hiperfoco pode funcionar como estratégia de autorregulação.  No TDAH, costuma estar associado à busca por estímulos altamente recompensadores.

VEJA MAIS | Autismo: Sintomas e Diagnóstico

Como diferenciar hiperfoco de concentração comum ou estado de flow

Embora pareçam semelhantes, são fenômenos distintos:

Concentração comum: é voluntária, flexível e permite pausas estratégicas. A pessoa consegue mudar o foco quando necessário.

Estado de flow: ocorre quando alguém está altamente envolvido em uma atividade prazerosa e desafiadora, mas mantém percepção de contexto e autorregulação adequada.

Hiperfoco: costuma ser involuntário, rígido e pouco adaptável. A pessoa permanece presa à atividade, negligenciando desconfortos físicos, sinais corporais e demandas externas.

Essa diferença é essencial para evitar interpretações equivocadas, principalmente quando se fala de pessoas neurodivergentes que podem depender desse tipo de foco como forma de autorregulação.

Possíveis impactos do hiperfoco

O hiperfoco pode trazer benefícios, como produtividade elevada em tarefas específicas, porém seus efeitos adversos merecem atenção.

Efeitos físicos

  • permanência prolongada na mesma postura, favorecendo dores musculares e desconfortos;
  • dificuldade de perceber fome, sede ou cansaço;
  • perda da noção do tempo.

Efeitos emocionais e sociais

  • irritabilidade quando interrompido, especialmente em pessoas no espectro autista;
  • redução de interações com familiares e colegas;
  • sensação de negligência percebida por parceiros ou pessoas próximas;
  • prejuízo no equilíbrio das rotinas diárias.

Efeitos na vida cotidiana e no trabalho

  • dificuldade em alternar entre atividades;
  • atrasos em tarefas importantes;
  • esquecimento de compromissos;
  • desgaste em relações profissionais e familiares.

Quando esses prejuízos se tornam frequentes, recomenda-se acompanhamento especializado para desenvolver estratégias de manejo, organização do tempo e autorregulação emocional.

Por que não devemos banalizar o hiperfoco

Usar o termo de maneira ampla, como simples paixão por um tema ou dedicação intensa a um hobby, reduz a compreensão de um fenômeno que envolve funcionamento cognitivo específico.

A banalização também invisibiliza dificuldades reais de pessoas neurodivergentes, dilui a importância de apoio adequado e dissemina estereótipos incorretos sobre TDAH e TEA.

Compreender o hiperfoco a partir de bases científicas favorece abordagens mais respeitosas e alinhadas às necessidades reais de quem vive esse fenômeno.

VEJA MAIS | TDAH é hereditário?

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Perguntas frequentes

1. Hiperfoco é um diagnóstico?

Não. Hiperfoco é um fenômeno cognitivo observado em diferentes condições neurodivergentes, mas não constitui um diagnóstico isolado. Ele aparece como parte do funcionamento atencional de algumas pessoas, especialmente em quadros como TDAH e TEA.

2. Toda pessoa com TDAH ou autismo apresenta hiperfoco?

Não. Embora seja mais frequente nesses grupos, o hiperfoco não se manifesta de forma uniforme. A intensidade, a duração e o impacto variam entre indivíduos, e muitos não apresentam esse padrão de atenção.

3. Hiperfoco é a mesma coisa que gostar muito de algo?

Não. Gostar de um tema, pesquisar sobre ele ou dedicar tempo voluntário a um hobby não caracteriza hiperfoco. O hiperfoco envolve perda de flexibilidade atencional e dificuldade de interromper a atividade, mesmo quando isso seria necessário.

4. O hiperfoco pode trazer benefícios?

Sim. Em algumas situações, ele permite desempenho elevado em tarefas específicas e favorece a produção de trabalhos detalhados. No entanto, esses benefícios dependem de manejo adequado e de uma rotina equilibrada.

5. O hiperfoco pode prejudicar a saúde física?

Pode. Manter a mesma postura por longos períodos, esquecer de se alimentar ou ignorar sinais corporais são efeitos possíveis quando o hiperfoco não é reconhecido e administrado.

6. Pessoas em hiperfoco ficam irritadas quando interrompidas?

Isso pode ocorrer porque a alternância de foco exige esforço cognitivo elevado durante esse estado. Essa dificuldade não significa falta de educação ou desinteresse, mas sim um funcionamento atencional específico.

7. O hiperfoco é permanente?

Não. Ele é episódico e surge em situações específicas. A pessoa pode passar dias sem apresentar hiperfoco e, em outro momento, entrar rapidamente nesse estado diante de um estímulo considerado altamente relevante.

8. Como identificar que uma pessoa entrou em hiperfoco?

Sinais comuns incluem imersão prolongada em uma tarefa, redução da resposta a estímulos externos, perda da noção do tempo e dificuldade em alternar para outras atividades. A intensidade desses sinais varia entre indivíduos.

9. É possível aprender a manejar o hiperfoco?

Sim. Estratégias como alarmes, pausas programadas, organização da rotina e acompanhamento profissional ajudam a reduzir prejuízos e aumentar a autonomia da pessoa.

10. O hiperfoco desaparece na vida adulta?

Não necessariamente. Em alguns casos, ele se torna mais previsível com a maturidade e o autoconhecimento. O manejo adequado costuma ser mais importante do que tentar eliminar esse padrão.


Fonte Consultada

Veja Saúde: Hiperfoco: o que é, como reconhecer e cuidados para que ele não faça mal 


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