Os distúrbios neurológicos tornaram-se a principal causa de incapacidade no mundo, segundo o mais recente relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Esse dado reforça um cenário que vem sendo observado por especialistas brasileiros: o impacto crescente de condições como Acidente Vascular Cerebral (AVC), doença de Alzheimer, enxaqueca, epilepsia e neuropatia diabética.
A compreensão desse avanço é essencial para orientar políticas públicas, promover prevenção e ampliar o acesso ao cuidado especializado.
O documento Global Status Report on Neurology, publicado em 2025, revela que mais de 3,4 bilhões de pessoas vivem com alguma condição que afeta o cérebro ou o sistema nervoso.
Esse número representa quase metade da população mundial e mostra que o problema tem alcance amplo, contínuo e significativo.
A OMS estima ainda que quarenta por cento da população convive com alguma doença neurológica, com oitenta por cento dos casos concentrados em países de baixa e média renda.
Esses locais tendem a oferecer menor disponibilidade de diagnóstico precoce, exames complementares e terapias adequadas.
O Brasil se enquadra nesse grupo e, por isso, vivencia de forma contundente os efeitos desse aumento.
Por que os distúrbios neurológicos causam tanta incapacidade
O cérebro coordena funções vitais, como memória, fala, movimento, comportamento, equilíbrio corporal e regulação emocional.
Lesões, inflamações ou degenerações em áreas cerebrais e na medula espinhal interferem na capacidade de realizar atividades básicas do cotidiano. O impacto é imediato e se estende para múltiplos sistemas do organismo.
Uma lesão cerebral que interrompe a circulação sanguínea, como no acidente vascular cerebral, pode comprometer a fala, a força muscular, a capacidade de caminhar e o raciocínio.
Doenças neurodegenerativas, como a de Alzheimer, alteram progressivamente a memória e a autonomia.
Condições como enxaqueca, embora não sejam degenerativas, provocam crises intensas e recorrentes que prejudicam produtividade, rotina, bem-estar e sociabilidade.
Essas doenças compartilham um aspecto comum. Quando não identificadas e tratadas adequadamente, geram limitações duradouras e ampliam a necessidade de cuidados prolongados. Isso explica por que, em escala populacional, elas ultrapassaram o câncer e as doenças cardiovasculares como principais causas de incapacidade.
O alerta da OMS e os desafios globais
O relatório faz parte do Plano Global Intersetorial para Epilepsia e outros Distúrbios Neurológicos, que propõe metas internacionais até 2031.
Entre as recomendações, estão: o fortalecimento da atenção primária, a capacitação de profissionais, o combate ao estigma e a criação de redes de atendimento capazes de oferecer diagnóstico precoce e terapias atualizadas.
A OMS destaca que a maior parte dos países ainda não possui políticas estruturadas para lidar com as condições neurológicas.
Menos de um terço das nações tem diretrizes consolidadas para prevenção, manejo e reabilitação desses quadros.
Essa ausência dificulta a organização do cuidado e impede que os pacientes recebam intervenções adequadas no tempo certo.
Entre os distúrbios que mais contribuem para incapacidade estão:
- avc;
- enxaqueca;
- alzheimer e outras demências;
- neuropatia diabética;
- epilepsia;
- transtornos do espectro autista.
Todos exigem acompanhamento constante, orientação especializada e integração entre equipes multiprofissionais.
A demora no diagnóstico ou a limitação de acesso a tratamentos impactam diretamente a evolução clínica.
O cenário brasileiro: por que o impacto é tão grande
No Brasil, o Acidente Vascular Cerebral é a principal causa de incapacidade e a segunda de morte. Desde 2019, o país voltou a registrar maior mortalidade por AVC do que por infarto, movimento contrário ao observado em países desenvolvidos.
Isso ocorre por diversos motivos, incluindo maior prevalência de hipertensão não controlada, diabetes, tabagismo, sedentarismo e atraso no atendimento emergencial.
Nos últimos anos, houve avanços importantes na criação de unidades especializadas no tratamento de AVC e na ampliação do acesso a procedimentos como trombólise e trombectomia por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
Apesar disso, a distribuição dos serviços ainda é desigual. Regiões inteiras carecem de hospitais habilitados e de equipes disponíveis vinte e quatro horas por dia.
Esse cenário compromete o tempo ideal de atendimento, que é determinante para reduzir sequelas.
A trombólise utiliza medicamentos capazes de dissolver coágulos e restabelecer o fluxo sanguíneo cerebral.
A trombectomia é realizada por cateter e remove mecanicamente o bloqueio arterial. Ambas são técnicas que oferecem grande chance de recuperação quando aplicadas rapidamente.
Cada hora de atraso aumenta de forma significativa o risco de morte e de incapacidade permanente.
Reconhecer os sinais de um possível AVC é fundamental.
O acrônimo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) orienta a população a observar:
- Sorriso torto;
- Abraço fraco;
- Música ou fala enrolada;
- Urgência em ligar para o 192.
A resposta rápida salva vidas e reduz complicações.
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Alzheimer e o envelhecimento acelerado no país
A doença de Alzheimer representa outro grande desafio sanitário.
O envelhecimento populacional é o principal fator de risco e o Brasil vive essa transição em ritmo intenso.
Enquanto alguns países levaram décadas para envelhecer, o Brasil percorre esse caminho em poucos anos. A estrutura de cuidado, porém, não acompanhou essa velocidade.
Além da idade, condições crônicas como hipertensão, diabetes, depressão e isolamento social também aumentam o risco de declínio cognitivo.
O país possui um Plano Nacional de Demências aprovado, mas sua implementação ainda depende de avanços intersetoriais.
O cuidado adequado envolve não apenas serviços de saúde, mas também políticas sociais que ampliem espaços de convivência, segurança urbanística e suporte às famílias.
Nos últimos anos, surgiram biomarcadores plasmáticos que auxiliam no diagnóstico precoce e terapias direcionadas a proteínas específicas envolvidas na doença.
Esses recursos representam um avanço, mas exigem capacitação profissional e centros referenciados para que cheguem à população de forma segura e equitativa.
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Enxaqueca: quando a dor impede a vida
A enxaqueca é uma das doenças neurológicas mais presentes no cotidiano das pessoas. Afeta cerca de quinze por cento da população e é mais comum em mulheres.
Durante muito tempo, foi tratada como uma dor de cabeça comum, o que contribuiu para atrasos no diagnóstico e no manejo adequado.
O impacto global da enxaqueca é profundo. Ela foi classificada como a segunda causa de incapacidade no mundo, o que indica sua frequência e intensidade.
As crises podem durar horas ou dias, acompanhadas de náuseas, sensibilidade à luz e ao som e piora com atividades rotineiras.
O tratamento também enfrenta desigualdades, terapias modernas que incluem anticorpos monoclonais e medicações específicas para abortar as crises não estão amplamente disponíveis no sistema público.
A falta de acesso mantém muitos pacientes em sofrimento crônico, o manejo correto na atenção básica é fundamental.
Pessoas com mais de três dias de dor de cabeça por mês devem buscar avaliação médica para evitar progressão e complicações.
O que precisa avançar?
Os distúrbios neurológicos já configuram um dos maiores desafios sanitários deste século. O relatório da OMS reforça que a resposta deve ser ampla, integrada e contínua.
Para países como o Brasil, isso inclui:
- expansão de unidades especializadas em AVC;
- capacitação de profissionais em áreas como demências e cefaleias;
- ampliação do acesso a exames diagnósticos;
- fortalecimento da reabilitação multiprofissional;
- investimento em prevenção e controle de fatores de risco;
- políticas públicas para suporte a cuidadores e famílias.
A compreensão de que o cérebro necessita de cuidado permanente é central para reduzir impacto, promover autonomia e melhorar a qualidade de vida.
Sobre a SPDM
A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) é uma das maiores organizações sociais de saúde do país e atua em parceria com o Sistema Único de Saúde. Sua missão é promover assistência de qualidade, pesquisa e educação em saúde, contribuindo para o fortalecimento das políticas públicas e para o cuidado integral da população.
Por meio de equipes multidisciplinares e de práticas baseadas em evidências científicas, a SPDM participa ativamente dos esforços voltados à prevenção, diagnóstico e tratamento das doenças neurológicas que afetam milhões de brasileiros.
Fontes Consultadas
G1: AVC, Alzheimer e enxaqueca: por que OMS emitiu alerta sobre essas doenças e condições neurológicas?. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2025/11/08/avc-alzheimer-e-enxaqueca-por-que-oms-emitiu-alerta-sobre-essas-doencas-e-condicoes-neurologicas.ghtml
OMS: Global status report on neurology. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240116139
Agência Senado. Brasil agora tem política nacional para Alzheimer e outras demências