As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte entre as mulheres no Brasil e no mundo. Embora tradicionalmente sejam associadas ao envelhecimento, estudos recentes mostram um cenário preocupante: o número de casos de infarto e de mortes por doenças cardíacas entre mulheres jovens tem aumentado nas últimas décadas. Esse fenômeno reforça a necessidade de ampliar a conscientização sobre fatores de risco, sintomas e estratégias de prevenção.
Diversos fatores ajudam a explicar esse aumento, incluindo maior prevalência de obesidade, diabetes, hipertensão arterial, sedentarismo, estresse crônico e alterações metabólicas. Além disso, especialistas alertam que as doenças cardiovasculares em mulheres podem se manifestar de forma diferente em relação aos homens, dificultando o reconhecimento precoce dos sintomas e atrasando o início do tratamento.
A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) desenvolve ações voltadas à promoção da saúde, prevenção de doenças e cuidado integral da população. Informar sobre os fatores de risco cardiovasculares faz parte desse compromisso, contribuindo para o diagnóstico precoce e para a redução de complicações potencialmente graves.
Neste artigo, você entenderá por que a mortalidade por infarto vem aumentando entre mulheres jovens, quais fatores aumentam o risco cardiovascular, quais sinais merecem atenção e como a prevenção pode proteger a saúde do coração ao longo da vida.
O aumento das doenças cardiovasculares em mulheres jovens
Nas últimas décadas, pesquisadores observaram uma mudança importante no perfil epidemiológico das doenças cardiovasculares. Se antes a maioria dos casos ocorria após a menopausa, atualmente cresce o número de eventos cardiovasculares em mulheres com menos de 55 anos.
Esse aumento resulta da combinação de diversos fatores relacionados ao estilo de vida moderno e às mudanças no perfil de saúde da população feminina. Entre eles, destacam-se:
- aumento da obesidade;
- crescimento da incidência de diabetes tipo 2;
- hipertensão arterial em idades mais precoces;
- sedentarismo;
- alimentação rica em alimentos ultraprocessados;
- estresse crônico;
- distúrbios do sono;
- tabagismo;
- consumo excessivo de álcool.
Além dos fatores clássicos, as mulheres apresentam condições específicas que também influenciam o risco cardiovascular, como complicações durante a gestação, doenças autoimunes e alterações hormonais ao longo da vida. Esses aspectos tornam a avaliação individualizada ainda mais importante.
Outro desafio é que muitas mulheres jovens não se reconhecem como pertencentes a um grupo de risco. Como consequência, sintomas iniciais podem ser minimizados ou atribuídos ao estresse, à ansiedade ou ao excesso de trabalho, retardando a procura por atendimento médico.
O que explica o aumento da mortalidade por infarto em mulheres jovens no Brasil?
Especialistas apontam que o aumento da mortalidade não está relacionado apenas ao crescimento dos fatores de risco. Também existem diferenças importantes na forma como o infarto se manifesta nas mulheres e no acesso ao diagnóstico e tratamento.
Estudos mostram que mulheres jovens frequentemente apresentam sintomas menos característicos do infarto, o que pode atrasar o reconhecimento do problema tanto pela própria paciente quanto pelos profissionais de saúde. Além disso, algumas condições cardiovasculares são mais frequentes no sexo feminino, como a disfunção da microcirculação coronariana e a dissecção espontânea das artérias coronárias, mecanismos diferentes da obstrução clássica por placas de gordura.
A reportagem da BBC News Brasil destaca que menos da metade das mulheres recebe tratamento adequado em tempo oportuno após um infarto, fator que contribui para o aumento da mortalidade. Entre os motivos, estão:
- sintomas frequentemente considerados "atípicos";
- demora para procurar atendimento;
- menor suspeita clínica em mulheres jovens;
- diferenças na realização de exames e procedimentos;
- presença de múltiplos fatores de risco associados.
Pesquisas internacionais também demonstram que mulheres com menos de 50 anos apresentam maior mortalidade após um primeiro infarto quando comparadas a homens da mesma faixa etária, reforçando a necessidade de estratégias específicas de prevenção e diagnóstico precoce.
Quais são os fatores de risco específicos das mulheres?
Embora fatores tradicionais afetem homens e mulheres, algumas condições são mais relevantes para a população feminina e merecem atenção durante a avaliação médica.
Entre os principais fatores, estão:
Hipertensão durante a gestação
Complicações como pré-eclâmpsia e hipertensão gestacional aumentam o risco de desenvolver doenças cardiovasculares anos após a gravidez.
Diabetes gestacional
Mulheres que apresentam diabetes durante a gestação possuem maior probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2 e doença cardiovascular futuramente.
Menopausa
A redução dos níveis de estrogênio está associada ao aumento do colesterol, da pressão arterial e da rigidez das artérias, favorecendo o desenvolvimento da aterosclerose.
Doenças autoimunes
Lúpus, artrite reumatoide e outras doenças inflamatórias crônicas, mais frequentes entre mulheres, aumentam significativamente o risco cardiovascular.
Estresse crônico e saúde mental
Ansiedade, depressão e estresse persistente estão associados à maior liberação de hormônios relacionados à inflamação e ao aumento da pressão arterial, contribuindo para eventos cardiovasculares.
Quais são os sinais de alerta do infarto em mulheres jovens?
Durante muitos anos, acreditou-se que o infarto apresentava praticamente os mesmos sintomas em homens e mulheres. Hoje se sabe que, embora a dor no peito continue sendo o sinal mais comum em ambos os sexos, as mulheres, especialmente as mais jovens, podem apresentar manifestações menos típicas ou uma combinação diferente de sintomas, o que aumenta o risco de atraso no diagnóstico.
Por esse motivo, é importante conhecer os sinais de alerta e procurar atendimento imediatamente sempre que houver suspeita de um evento cardiovascular.
Os sintomas que merecem atenção incluem:
- dor, pressão, aperto ou desconforto no peito;
- dor que pode irradiar para braços, costas, pescoço, mandíbula ou ombros;
- falta de ar;
- náuseas ou vômitos;
- suor frio;
- tontura ou sensação de desmaio;
- fadiga intensa e incomum;
- palpitações;
- mal-estar súbito sem causa aparente.
Em algumas mulheres, o desconforto no peito pode ser discreto ou até mesmo estar ausente, sendo substituído por sintomas como cansaço extremo, falta de ar, dor nas costas ou sensação semelhante à de uma indigestão. Essas apresentações menos características contribuem para que muitas pacientes demorem a procurar atendimento médico.
Por que o diagnóstico costuma ser mais tardio nas mulheres?
Diversos estudos apontam que mulheres com infarto frequentemente recebem o diagnóstico mais tarde do que os homens. Isso ocorre por uma combinação de fatores biológicos, sociais e assistenciais.
Entre os principais motivos, estão:
- sintomas menos típicos;
- menor percepção do risco cardiovascular pelas próprias mulheres;
- associação dos sintomas à ansiedade, estresse ou problemas gastrointestinais;
- menor suspeita clínica em mulheres jovens;
- maior ocorrência de mecanismos de infarto diferentes da obstrução clássica das artérias coronárias.
Como prevenir complicações cardiovasculares?
A maior parte dos fatores de risco cardiovasculares pode ser controlada por meio de mudanças no estilo de vida e acompanhamento médico periódico. A prevenção continua sendo a estratégia mais eficaz para reduzir a ocorrência de infarto, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca.
As principais medidas incluem:
- manter alimentação equilibrada, rica em frutas, verduras, legumes, grãos integrais e proteínas magras;
- praticar atividade física regularmente;
- controlar a pressão arterial;
- manter níveis adequados de colesterol e glicemia;
- evitar o tabagismo;
- moderar o consumo de bebidas alcoólicas;
- controlar o peso corporal;
- dormir adequadamente;
- reduzir o estresse crônico;
- realizar consultas e exames preventivos conforme orientação médica.
Mulheres com histórico de hipertensão gestacional, diabetes gestacional, menopausa precoce ou doenças autoimunes devem receber avaliação cardiovascular individualizada, pois apresentam risco aumentado para eventos cardiovasculares futuros.
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Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico das doenças cardiovasculares resulta da integração entre avaliação clínica, exame físico, histórico familiar, fatores de risco e exames complementares.
Entre os principais exames utilizados, estão:
- eletrocardiograma;
- exames laboratoriais;
- ecocardiograma;
- teste ergométrico;
- monitorização ambulatorial da pressão arterial;
- exames de imagem das artérias coronárias quando indicados.
A escolha dos exames depende dos sintomas apresentados, da idade da paciente, dos fatores de risco e da suspeita clínica.
Como é realizado o tratamento?
O tratamento varia conforme o diagnóstico e a gravidade da doença cardiovascular.
Além do manejo das situações agudas, como o infarto, o cuidado envolve estratégias voltadas ao controle dos fatores de risco e à prevenção de novos eventos cardiovasculares.
O plano terapêutico pode incluir:
- acompanhamento cardiológico periódico;
- mudanças no estilo de vida;
- programas de reabilitação cardiovascular quando indicados;
- controle rigoroso da hipertensão, diabetes e colesterol;
- orientação nutricional;
- incentivo à prática regular de atividade física;
- monitoramento contínuo dos fatores de risco.
A prevenção secundária desempenha papel fundamental para reduzir novas internações e melhorar a qualidade de vida das pacientes.
Como acessar os serviços da SPDM pelo SUS?
A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), por meio de hospitais, ambulatórios, unidades especializadas e serviços de atenção básica que gerencia em parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS), participa da assistência a pessoas com doenças cardiovasculares em diferentes níveis de complexidade.
Quem apresenta sintomas persistentes, fatores de risco cardiovasculares ou necessidade de investigação deve procurar inicialmente uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Após avaliação clínica, quando necessário, o paciente poderá ser encaminhado para serviços especializados da rede SUS administrados pela SPDM, conforme os fluxos assistenciais definidos pelo município ou estado.
Nos casos de dor intensa no peito, falta importante de ar, perda de consciência ou suspeita de infarto, a orientação é procurar imediatamente uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou um serviço de urgência e emergência.
Considerações finais
As doenças cardiovasculares continuam sendo uma das principais causas de morte entre as mulheres, e o aumento dos casos em faixas etárias mais jovens reforça a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. Conhecer os fatores de risco específicos do sexo feminino, reconhecer sinais de alerta e adotar hábitos saudáveis são medidas capazes de reduzir significativamente a ocorrência de complicações graves, como infarto, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral.
A SPDM, com mais de 90 anos de história dedicados à promoção da vida, atua na promoção da saúde, na prevenção de doenças e no cuidado integral da população por meio de hospitais, ambulatórios, unidades especializadas e serviços de atenção básica administrados em parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS). Pessoas com fatores de risco cardiovasculares ou sintomas sugestivos de doenças do coração devem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para avaliação inicial. Quando necessário, poderão ser encaminhadas para serviços especializados da rede SUS gerenciados pela SPDM, garantindo acompanhamento contínuo, diagnóstico adequado e cuidado baseado em evidências científicas.
Fontes consultadas
-
- BBC News Brasil. O que explica o aumento da mortalidade por infarto em mulheres jovens no Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4n6pd4e40po
- National Library of Medicine (PubMed Central). Sex Differences in Cardiovascular Disease: From Pathophysiology to Clinical Implications. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11148660/
- American Heart Association. Changing the way we view women's heart attack symptoms. https://www.heart.org/en/news/2020/03/06/changing-the-way-we-view-womens-heart-attack-symptoms
- Johns Hopkins Medicine. Heart Attacks in Women. https://www.hopkinsmedicine.org/health/expert-qa/heart-attacks-in-women
- SpringNaturelink. Disparidades de gênero no atraso pré-hospitalar em pacientes com infarto agudo do miocárdio: uma revisão sistemática e meta-análise. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1186/s12872-026-05995-3