Limerência: significado, prováveis sintomas e diferenças com outras condições

Limerência é um termo pouco conhecido que descreve um desejo intenso, involuntário e obsessivo por outra pessoa, acompanhado de pensamentos constantes e forte necessidade de reciprocidade. Essa fixação pode gerar sofrimento e interferir na vida cotidiana.

Qualquer pessoa pode vivenciar a limerência, mas ela tende a ser mais comum em indivíduos com ansiedade ou depressão. 

O período em que esses sentimentos estão mais intensos é chamado de episódio limerente, cuja duração pode variar bastante de pessoa para pessoa.

Em tese, a limerência alimenta a sensação de incerteza e o desejo de reciprocidade. Não é uma patologia, mas alguma conexão excepcional relacionada a uma pessoa específica e ao significado dela para o indivíduo limerente.

Embora existam poucos estudos sobre possíveis relações, certos pesquisadores defendem a tese de que esse sentimento obsessivo pode estar relacionado com determinados quadros clínicos, como:

  • transtornos de apego;
  • Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT);
  • Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH);
  • Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).

Limerência é um termo da psicologia cunhado nos anos de 1970. Desde 2020, na internet, vem aumentando o interesse mundial pelo assunto. É importante destacar que a limerência não é formalmente reconhecida como um transtorno psicológico que exija tratamento específico.

Prováveis sintomas da limerência

A limerência pode acontecer de forma involuntária. No início, existe a tendência de existir uma euforia natural que aumenta o otimismo e a energia. Talvez isso explique porque as pessoas nesta condição possam se viciar por este estado de espírito.

Em alguns casos, mesmo que o indivíduo não consiga parar de pensar na pessoa, ou seja, no objeto limerente, ele pode não expressar os sentimentos ou não querer iniciar um relacionamento amoroso. Certas pessoas limerentes desejam apenas sentir que existe a reciprocidade do sentimento.

Caso não seja controlada, a limerência talvez traga efeitos devastadores. Essa experiência estressante pode impedir que a pessoa controle as emoções, se sentindo impotente e fora de controle. Outros possíveis problemas são:

  • não conseguir se manter no emprego;
  • descuidar da higiene pessoal, do sono e da alimentação;
  • negligenciar os outros relacionamentos com a família e os amigos;
  • ficar preso no passado, pensando nas interações anteriores com a pessoa;
  • tentativa de ruminação e pensamento no significado daquela interação.

A incerteza e a possível dependência

Um aspecto crucial que difere ela de outras condições é que a limerência alimenta a sensação de incerteza.

Em uma conjuntura amorosa não limerente, a pessoa ultrapassa o estágio inicial para obter certezas, buscando saber se o amor é ou não correspondido.

Já no indivíduo limerente, a tendência é permanecer na fase de incerteza, esperança e desejo, conforme defendem certos estudiosos, o que talvez evolua para uma “dependência”, em um estado de desejo constante.

Certos pesquisadores chamam de “lampejo” essa sensação de incerteza, um lampejo sobre a esperança de uma conexão ou de alguma reciprocidade com o objeto limerente, mesmo sem ser na forma de relacionamento, necessariamente.

Apesar do receio da rejeição, a tendência é que quanto maior o grau de incerteza, mais a pessoa limerente deseje a reciprocidade.

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Diferença entre limerência e fascínio

Em quadros de limerência, às vezes, o pensamento fica preso com a pessoa de modo absoluto, de maneira que ele domina tanto a vida ao ponto de não sobrar espaço para mais nada. De fato, este aspecto pode diferenciar esta condição do fascínio, segundo alguns pesquisadores.

Normalmente, o fascínio pode durar de 3 a 6 meses, às vezes até um ano, sendo que começa no início de muitos relacionamentos amorosos, mas sem tanta intensidade e consequências negativas para a saúde mental e física dos indivíduos. 

Ao estar fascinado por outra pessoa, para cada sinal de emoção você não pensa de maneira obsessiva. Não há tanta tendência de avaliar a linguagem corporal da pessoa, no mesmo nível como fazem os indivíduos limerentes.

Diferença entre limerência e paixão romântica

Conforme alguns estudiosos, na paixão romântica existe um desejo de intimidade e proximidade, não somente físico, mas de conexão e intimidade emocional. Já na pessoa limerente, além da vontade de intimidade, também há uma ruminação obsessiva.

O sistema dopaminérgico é influenciado pela paixão romântica. Por sua vez, uma pessoa com alta limerência ou com forte componente obsessivo pode apresentar um padrão semelhante ao de dependência.

Apesar de certos estudiosos reconhecerem algumas hipóteses de coincidências entre as duas condições, como o componente ruminante e obsessivo, também há teses que discordam, ao não considerarem a limerência como intercambiável com outros modos de amor e romance.

Neste contexto, a limerência pode se diferenciar da paixão romântica por ser: prejudicial, problemática e negativa.

Limerência talvez seja mais intensa do que um apego ansioso

Psicólogo cognitivo-comportamental, da Universidade de Chichester, no Reino Unido, Ian Tyndall junto com colegas criou um questionário, para pessoas que tiveram ou vivenciaram a limerência, obtendo respostas de mais de 600 indivíduos.

De acordo com os resultados, não existiu uma grande correlação na associação entre a limerência e o apego ansioso, sendo que ela é considerada uma condição debilitante mais profunda, segundo Tyndall.

Conforme as respostas, os participantes não apresentavam ansiedade social generalizada, embora sentissem ansiedade especificamente em relação ao objeto limerente.

Mesmo sendo obsessivos a respeito de qualquer interação e tendo o desejo de interagir com a pessoa, a intensidade pode ser tamanha que, quando ficam frente a frente com ela, os indivíduos limerentes talvez até saiam correndo. 

Limerência e stalking

Embora existam traços comuns com o stalking, a tendência é que as pessoas limerentes não progridem para um estado no qual mantêm condutas que prejudicam a outra pessoa.

No stalking, você pode pensar que tem direito a outra pessoa ou que ela possui o mesmo sentimento por você. Funciona como uma projeção dos seus sentimentos no objeto limerente. Estima-se que há algum tipo de diagnóstico psicopático em até 72% dos stalkers.

Por outro lado, possivelmente existe uma integridade pessoal relacionada à limerência. A pessoa limerente fica contida. A maioria dos indivíduos é protegida por sentimentos de empatia pelos demais e por limites explícitos, sobre o que significa a realidade e o que é a própria experiência emocional.

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Perguntas frequentes

A limerência pode ser muito frequente?

Uma experiência de limerência pode ocorrer em diversas ocasiões ou apenas uma vez na vida. Pode acontecer com uma pessoa e, posteriormente, com outra.

Quanto tempo dura a limerência?

Provavelmente, um episódio de limerência pode durar de 18 meses a 3 anos ou mais.

Quantas pessoas têm limerência?

Uma vez que as amostras de estudos são pequenas sobre o tema, não se sabe ao certo quantas pessoas têm esta experiência.

Como diminuir a limerência?

Talvez, uma forma de diminuir a limerência é evitar o contato com a pessoa, o que pode reduzir o estado de dependência, gradualmente. Uma rejeição simples e pura também ajuda, pois assim não há lampejo de esperança e a limerência não tem onde se escorar. Em alguns casos, recomenda-se também buscar terapia.

Tratamento na SPDM

A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) recebe pacientes encaminhados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a fim de disponibilizar especialistas para Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), capazes de ajudar na identificação das necessidades emocionais não atendidas e a na desconstrução de padrões de idealização excessiva em relacionamentos.

Na SPDM, os especialistas aplicam abordagens estruturadas, baseadas em evidências, para o tratamento psicológico de diferentes condições emocionais. O foco está na mudança de comportamentos e na reestruturação de crenças disfuncionais, com estratégias de enfrentamento aplicáveis ao cotidiano.

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Considerações finais

A limerência não é considerada uma doença, mas sim um desejo obsessivo que alimenta a sensação de incerteza e o desejo de reciprocidade. Em alguns casos, pode evoluir para comportamentos de perseguição (stalking), embora isso seja incomum. Se não for controlada, a condição talvez afete a saúde mental e física, além de prejudicar a vida social.

Estima-se que a duração desse estado emocional possa ser de 18 meses a 3 anos ou mais. Evitar o contato ou receber uma rejeição definitiva tende a reduzir os sintomas, assim como a prática de TCC.

Fontes consultadas

BBC.COM. Limerência: o sentimento por vezes confundido com a paixão, mas que se aproxima da obsessão e pode ser perigoso. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cg5ndm7r341o

BBC.COM. Por que algumas pessoas sentem uma paixão intensa, que parece amor e como isso afeta a saúde delas. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c8d98m8dn89o

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