No início dos anos 80, as palavras HIV e Aids tomaram os noticiários e as ruas levando pavor à população, com o surgimento e proliferação de uma doença que, à época, era considerada fatal.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, naquela década, cerca de 40 milhões de pessoas morreram de causas relacionadas ao HIV, e ainda segundo a OMS, mais de 600 mil pessoas continuam morrendo em decorrência do HIV anualmente.
Dois fatores contribuem fortemente para que este índice permaneça tão alto: a subnotificação (ou ausência de diagnóstico) e a desinformação, que leva ao preconceito e, assim, à dificuldade em enfrentar o problema na raiz.
Neste artigo, falaremos sobre a diferença entre HIV e Aids e sua história, desmistificaremos mitos e falaremos sobre como a doença pode ser tratada – inclusive no SUS.
Qual a diferença entre HIV e Aids?
A Aids, nome para a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, é a doença causada pelo HIV (na sigla em inglês, Vírus da Imunodeficiência Humana). Ou seja, o HIV é o agente causador, e a Aids, a doença que pode acometer os portadores deste vírus.
Importante ressaltar que nem todos os portadores de HIV desenvolvem a Aids. Conforme o vírus progride no corpo do indivíduo, ele se multiplica e destrói os linfócitos T-CD4+, de modo a incapacitar seu sistema imunológico. Quando este sistema se torna incapacitado, ocorre o desenvolvimento da Aids.
Logo, toda pessoa acometida pela Aids carrega consigo o HIV, mas nem todo portador do vírus chega a desenvolver a doença.
Histórico do HIV e Aids no Brasil e no mundo
Segundo o Guia para Comunicadores sobre HIV/Aids, da Iniciativa de Meios Latinoamericanos sobre a Aids (Imlas), o primeiro caso do que viria a ser configurada como a Aids foi registrado em 5 de junho de 1981, em Atlanta, nos Estados Unidos, e somente um ano depois, em 1982, a nova enfermidade foi nomeada como Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids, em inglês). Até então, casos culminantes de falência do sistema imunológico possuíam causas diversas apontadas, não relacionadas à infecção pelo HIV.
Foi em 1984 que o vírus responsável pela Aids recebeu a denominação HIV (Human Immunodeficiency Virus) – ou seja, a doença foi nomeada antes mesmo de seu agente causador.
Em 1987 surge o primeiro medicamento antiretroviral aprovado pela agência regulatória dos Estados Unidos, o AZT. E, em 1996, a terapia antirretroviral altamente ativa (Haart, na sigla em inglês) foi considerada a terapia padrão para o tratamento do HIV, culminando em declínio nas hospitalizações e mortes pela Aids em todo mundo.

O primeiro caso no Brasil foi registrado em 1980, no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, mas somente em 1982 diagnosticado como Aids.
Mesmo diante de muita desinformação à época, o Brasil foi um dos países que mais reagiram rapidamente em relação à proliferação da doença. Em 1985, foi criado um programa federal de controle da Aids (Portaria n° 236/85) e instituído o Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (GAPA), primeira ONG do Brasil e da América Latina na luta contra a enfermidade.
Em 1986, foi criado o Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde; em 87, se inicia o uso do AZT, reduzindo a multiplicação do HIV nos pacientes; e, em 1988, ano em que se institui o 1º de dezembro como o Dia Mundial da Luta Contra a Aids, é criado o Sistema Único de Saúde (SUS).
Em 1991, tem início o processo para aquisição e distribuição gratuita de antirretrovirais pelo SUS, e por fim, em 1996, é regulamentada a prescrição de medicamentos anti-HIV no Brasil – medida que mudou consideravelmente a expectativa de vida de portadores do HIV no país.
Como o HIV é transmitido?
O Vírus da Imunodeficiência Humana se faz presente no sangue, sêmen, secreção vaginal e/ou leite materno da pessoa portadora. Ele pode ser transmitido por meio de:
- Relação sexual sem preservativo: a infecção pode ser transmitida por qualquer forma de sexo sem proteção, seja ele vaginal, anal ou oral;
- Transmissão vertical: quando uma mãe portadora do vírus passa para o filho durante a gestação ou parto, ou por meio da amamentação;
- Compartilhamento de agulhas/seringas: objetos injetáveis utilizados por portadores de HIV podem transmitir o vírus;
- Transfusão de sangue: recebimento do sangue de um portador de HIV. Foi uma das principais causas de contaminação nos anos 80, quando as testagens não eram uma medida padrão adotada pelas instituições;
- Instrumentos diversos não esterilizados: objetos como bisturis, piercings, artigos de manicure infectados pelo sangue de um portador.
A partir da infecção, o sistema imunológico passa a ser atacado pelo vírus. Os primeiros sinais surgem no período de 3 a 6 semanas, com a presença de sintomas como febre, mal-estar, diarreia, suores noturnos e emagrecimento. O organismo pode levar até 12 semanas após a infecção para produzir anticorpos.
Como o HIV não é transmitido?
Combater a desinformação é de suma importância para o combate ao HIV. Desde seu surgimento, existem inúmeros mitos que cercam a contaminação, muitas vezes associados a determinados grupos ou práticas.
É importante esclarecer que o vírus não é transmitido por nenhuma das seguintes formas:
- Por via aérea
- Sexo com uso de preservativo
- Beijo no rosto ou na boca
- Suor ou lágrimas
- Picada de mosquito ou outros insetos
- Abraço
- Aperto de mão
- Sabonete, toalha ou lençóis
- Uso em comum de talheres e copos
- Compartilhamento de assentos
- Uso de piscina e banheiros
- Doação de sangue (os materiais são esterilizados)
Elucidar estes pontos é algo fundamental para enfrentar o preconceito ainda existente com os portadores de HIV.
Principais sintomas da Aids
A Aids compromete o sistema imunológico do indivíduo, podendo desencadear uma série de sintomas progressivos, bem como outras doenças devido a imunidade extremamente baixa.
Sua progressão pode ser caracterizada em três diferentes estágios, conforme quadro abaixo:
| Leve |
|
| Moderado |
|
| Grave |
|
Percebe-se, portanto, que a Aids pode, muitas vezes, não ser considerada a causa mortis de uma pessoa, mas sim a principal responsável por levá-la a quadros graves que resultam, por fim, em óbito.
Como identificar o HIV?

O diagnóstico precoce pode ser um grande diferencial para a luta contra o HIV – para isso, a testagem regular é o melhor caminho. O teste é feito a partir da coleta de sangue ou por fluido oral.
O Sistema Único de Saúde oferece gratuitamente testes para diagnóstico do vírus. O Brasil dispõe de exames laboratoriais e testes rápidos capazes de detectar anticorpos contra o HIV em cerca de 30 minutos.
Portanto, se você passou por uma situação de risco, como sexo desprotegido ou compartilhamento de seringas, faça o teste o quanto antes. E mesmo nos casos em que não acredita ter passado recentemente por situação de risco, recomenda-se a realização de teste, pois muitas pessoas carregam o vírus por meses sem saber.
O que é PrEP e Pep e qual a diferença entre elas?
Outro importante método preventivo disponível são os medicamentos PrEP e PEP. PrEP significa “profilaxia pré-exposição”, ou seja, uma medicação que deve ser tomada antes da exposição ao vírus, e PEP significa “profilaxia pós-exposição”, medicação que deve ser tomada após uma provável exposição ao HIV.
A PrEP se apresenta como um método de proteção ao organismo em virtude de um possível contato com o HIV. É indicada para pessoas com maior vulnerabilidade a uma possível infecção com o vírus, como aquelas que tenham um parceiro ou parceira portadora do HIV e indivíduos que já tiveram ISTs. A PrEP leva até 20 dias para começar a fazer efeito.
Já a PEP é uma medida justificada como prevenção de urgência, podendo ser utilizada até 72 horas após o evento de risco (como ferimento, exposição ao sangue ou secreção contaminada, sexo desprotegido ou violência sexual). Para obtê-la, é necessário um teste de HIV para saber se a pessoa já estava infectada previamente.
Ambas as medicações podem ser obtidas pelo SUS.
Existe tratamento para HIV?
Hoje, é perfeitamente possível conviver com o HIV. Os medicamentos antirretrovirais (ARV), surgidos na década de 80, ajudam a evitar o enfraquecimento do sistema imunológico. Seu uso regular permite aumentar o tempo de vida dos portadores do vírus e reduzir o número de internações e infecções por doenças oportunistas.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde garante a distribuição gratuita de ARV para todas as pessoas portadoras do HIV. O tratamento fornecido pelo SUS possibilita a diminuição de infecções relacionadas ao vírus, melhora a qualidade de vida e reduz a mortalidade, com o acompanhamento médico constante e testagem regular.
Este tratamento possibilita, inclusive, que a pessoa portadora do HIV possa atingir a carga viral indetectável – quando a quantidade de vírus se torna inferior a 40 cópias por ml de sangue -, estágio que, acompanhado da medicação contínua, pode tornar o vírus intransmissível para seu parceiro ou parceira.
Conclusão
Felizmente, viver com o HIV não é mais uma sentença de morte. Graças aos testes e tratamentos fornecidos pelo SUS, o portador do vírus hoje encontra amparo na saúde e pode ter uma expectativa de vida mais longa e saudável.
Todavia, é de suma importância – e isto não deve ser desconsiderado em nenhum momento – o uso de preservativos como principal forma de prevenção ao HIV.
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