O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, a interação social e o comportamento, manifestando-se de formas e intensidades diferentes em cada indivíduo.
Nas últimas décadas, o diagnóstico do autismo tem avançado significativamente, impulsionado por novos estudos científicos e pela construção de políticas públicas mais inclusivas.
Recentemente, o Ministério da Saúde, em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), publicou novas diretrizes nacionais para o diagnóstico e o tratamento precoce do TEA em crianças.
Essas atualizações representam um marco para o cuidado integral e humanizado, oferecendo orientações mais precisas aos profissionais de saúde e caminhos mais acessíveis às famílias.
Por que as novas diretrizes são um avanço para o diagnóstico do TEA
As novas orientações trazem uma abordagem mais abrangente e centrada na criança, considerando não apenas os sintomas clínicos, mas também o contexto familiar, social e escolar.
Entre as principais mudanças estão:
- Ampliação da faixa etária de rastreamento: as diretrizes reforçam que a observação dos sinais de autismo deve começar já nos primeiros 18 meses de vida, com monitoramento contínuo durante a primeira infância.
- Maior integração entre profissionais: o diagnóstico passa a ser compartilhado entre equipes multiprofissionais, incluindo pediatras, neuropediatras, psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais.
- Ênfase no acompanhamento longitudinal: o objetivo é acompanhar o desenvolvimento da criança ao longo do tempo, e não basear o diagnóstico em uma única avaliação.
- Padronização de protocolos clínicos e instrumentos de triagem, como o M-CHAT-R/F (Modified Checklist for Autism in Toddlers) e outras ferramentas validadas para o contexto brasileiro.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a detecção precoce do autismo é essencial para reduzir atrasos no desenvolvimento, melhorar a comunicação e favorecer a autonomia da criança.
Cada ano de atraso no diagnóstico pode representar perda de oportunidades importantes de aprendizado e adaptação social.
A importância do diagnóstico precoce e da intervenção multidisciplinar
O diagnóstico precoce é o primeiro passo para garantir o acesso a terapias e estímulos adequados, fundamentais no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança.
As novas diretrizes reforçam que o tratamento do TEA deve ser personalizado e interdisciplinar, envolvendo profissionais de diferentes áreas.
Entre as principais abordagens recomendadas estão:
- Intervenções comportamentais baseadas em evidências, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), que auxilia na aquisição de habilidades sociais e comunicativas;
- Acompanhamento fonoaudiológico, voltado à estimulação da linguagem e da comunicação alternativa;
- Terapia ocupacional, para o desenvolvimento da coordenação motora e da autonomia nas atividades diárias;
- Apoio psicológico e pedagógico, com foco na integração escolar e na inclusão social;
- Orientação familiar, para fortalecer o vínculo entre cuidadores e profissionais de saúde.
A Fiocruz (2024) destaca que a intervenção precoce é capaz de melhorar significativamente a qualidade de vida de crianças com TEA, especialmente quando iniciada antes dos cinco anos de idade, período de maior plasticidade cerebral.
Sinais de alerta: o que pais e educadores devem observar
Um dos pontos centrais das novas diretrizes é capacitar profissionais da atenção primária, educadores e famílias a reconhecerem sinais precoces do autismo.
Os principais indícios incluem:
- Ausência de contato visual ou dificuldade em responder ao próprio nome;
- Pouca ou nenhuma fala até os dois anos de idade;
- Dificuldade em brincar de forma simbólica (como “fingir” que está cozinhando ou cuidando de bonecos);
- Movimentos repetitivos (como balançar as mãos ou o corpo);
- Resistência a mudanças na rotina;
- Pouca interação com outras crianças.
Esses sinais não significam necessariamente um diagnóstico de TEA, mas indicam a necessidade de avaliação especializada o quanto antes.
Importante:
O diagnóstico precoce não é uma “etiqueta”, mas uma ferramenta de cuidado. Ele permite que a criança receba apoio adequado para se desenvolver em seu próprio ritmo, com acolhimento e inclusão.
Como acessar serviços especializados pelo SUS
O Sistema Único de Saúde (SUS) é responsável por garantir o acesso gratuito à triagem, ao diagnóstico e às terapias necessárias para crianças com TEA.
De acordo com as novas diretrizes, o fluxo de atendimento deve ocorrer da seguinte forma:
- Atenção Primária à Saúde (UBS): primeira porta de entrada, onde a criança passa pela triagem inicial e, se necessário, é encaminhada para avaliação especializada.
- Centros de Especialidades ou Serviços de Referência em Neurodesenvolvimento: realizam o diagnóstico interdisciplinar e orientam o início do tratamento.
- Rede de Cuidado à Pessoa com Deficiência (RCPD): garante o acompanhamento contínuo e o suporte terapêutico.
- Educação e inclusão: as secretarias municipais e estaduais de educação devem assegurar o suporte pedagógico e o acesso a professores de apoio, conforme previsto na Política Nacional de Educação Especial (PNEE).
Essas etapas reforçam o compromisso do SUS em oferecer atenção integral, equitativa e contínua, com foco na inclusão social e no fortalecimento das famílias.
O papel da SPDM
Com mais de 90 anos de história dedicados à promoção da vida, a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) tem desempenhado um papel essencial na gestão e ampliação de serviços públicos voltados ao diagnóstico e ao cuidado de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, incluindo o TEA.
A instituição atua na capacitação de profissionais de saúde, no acolhimento familiar e na implementação de programas de atenção integral à infância, baseados em evidências científicas e alinhados às políticas nacionais de saúde e educação inclusiva.
Entre suas iniciativas, destacam-se:
- Ações de sensibilização e formação continuada, voltadas para profissionais da rede pública e equipes multiprofissionais;
- Projetos de cuidado humanizado, com foco na escuta ativa das famílias e no acompanhamento longitudinal das crianças;
- Promoção da intersetorialidade, articulando saúde, educação e assistência social em prol do desenvolvimento infantil.
Essas ações reafirmam o compromisso da SPDM em garantir um cuidado qualificado, humanizado e acessível, promovendo a autonomia e o bem-estar das crianças e suas famílias.
As novas diretrizes para o diagnóstico e o tratamento precoce do autismo em crianças representam um avanço significativo para o sistema público de saúde brasileiro.
Elas ampliam o olhar sobre o desenvolvimento infantil, fortalecem a integração entre profissionais e aproximam as famílias dos cuidados necessários.
Diagnosticar cedo é cuidar com responsabilidade e esperança.
A SPDM reforça seu compromisso com a promoção da vida, a disseminação do conhecimento e o fortalecimento de uma rede pública de saúde mais inclusiva, acolhedora e baseada em evidências científicas.
Fontes consultadas
- Ministério da Saúde (MS). Novas diretrizes para diagnóstico e tratamento precoce do Transtorno do Espectro Autista. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/setembro/ministerio-da-saude-orienta-teste-a-todas-as-criancas-para-identificar-possiveis-sinais-de-autismo-com-foco-na-intervencao-precoce
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Autism spectrum disorders – key facts. Disponível em:
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/autism-spectrum-disorders - Fiocruz. IdeiaSUS Fiocruz destaca atenção e cuidado de crianças com Transtorno do Espectro Autista . Disponível em: https://fiocruz.br/noticia/2024/04/ideiasus-fiocruz-destaca-atencao-e-cuidado-de-criancas-com-transtorno-do-espectro
- PubMed Evidence-Based Interventions in Autism Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38423716/
- Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM). Programas institucionais de atenção integral à infância e capacitação em saúde pública. Disponível em: https://spdm.org.br









