Transtornos neurológicos e visão: quando dirigir se torna arriscado

Mulher com dor de cabeça dentro do carro.

A condução de veículos é uma atividade complexa que exige funcionamento integrado de múltiplos sistemas cerebrais.

Atenção sustentada, rapidez no processamento das informações e coordenação entre percepção e movimento são requisitos permanentes durante o ato de dirigir.

Entre todos os sentidos envolvidos na direção, a visão ocupa papel central, já que cerca de 90 por cento das informações relevantes para o trânsito são processadas visualmente.

Quando um transtorno neurológico interfere nesse sistema integrado, o risco para o condutor e para terceiros aumenta de forma significativa.

Compreender como cérebro e visão interagem é fundamental para identificar situações em que dirigir deixa de ser seguro.

Os três pilares cognitivos da condução veicular

A condução de veículos depende de três pilares cognitivos fundamentais: atenção, velocidade de processamento e integração sensório-motora.

Atenção

A atenção é a capacidade do cérebro de selecionar, manter e alternar o foco entre diferentes estímulos simultâneos, como sinalização viária, outros veículos, pedestres e mudanças inesperadas no ambiente.

Na direção, ela precisa ser contínua e flexível, permitindo respostas rápidas diante de situações dinâmicas.

Velocidade de processamento

A velocidade de processamento refere-se ao tempo que o sistema nervoso leva para interpretar um estímulo visual ou auditivo e transformá-lo em uma resposta adequada.

Processamentos mais lentos comprometem ações como frenagem, mudança de faixa e desvio de obstáculos.

Integração sensório-motora

Já a integração sensório-motora envolve a articulação entre percepção visual, planejamento cerebral e execução motora.

É essa integração que permite que olhos, mãos e pés atuem de forma sincronizada, garantindo precisão e segurança nas manobras.

Qualquer condição neurológica que afete um ou mais desses pilares pode comprometer de forma relevante a capacidade de dirigir.

A relação entre sistema visual e funções cerebrais

A visão não é apenas um fenômeno óptico. Embora a retina capte estímulos, é o córtex occipital e suas redes associativas que constroem a percepção de profundidade, movimento, contraste e significado.

A direção exige que esses circuitos operem de forma contínua, sincronizando percepção e ação motora.

Transtornos neurológicos alteram essa dinâmica por diferentes vias:

  • reduzem o campo visual efetivo, mesmo quando a acuidade ainda parece preservada;
  • atrasam o tempo de reação, pois o cérebro processa a informação com maior lentidão;
  • alteram a capacidade de interpretar estímulos relevantes, comprometendo a tomada de decisão;
  • afetam o controle motor fino, prejudicando a execução de manobras.

O resultado é a perda de precisão em um ambiente que exige respostas rápidas e integradas.

Condições neurológicas que comprometem a direção

Acidente vascular cerebral e isquemias transitórias

Pessoas que sofreram acidente vascular cerebral podem apresentar hemianopsias, negligência espacial, lentificação cognitiva ou falhas na coordenação visomotora. 

Mesmo após recuperação parcial, déficits residuais muitas vezes aparecem apenas em tarefas complexas, como dirigir.

No caso das isquemias transitórias, episódios breves de visão turva, escurecimento temporário ou perda do campo visual podem indicar risco iminente para o trânsito.

Epilepsia

Crises epilépticas, mesmo quando raras, tornam a direção imprevisível. A simples possibilidade de uma crise durante o trajeto coloca o condutor em risco. Além disso, medicamentos antiepilépticos podem causar sonolência, visão dupla e lentificação cognitiva.

Por isso, diversas legislações exigem período livre de crises antes de permitir a condução.

Doença de Parkinson

Além dos tremores e rigidez, a doença de Parkinson altera a percepção de movimento, sensibilidade ao contraste e tomada de decisão. Muitos pacientes relatam sensação de congelamento diante de estímulos visuais complexos, impactando frenagens e conversões. A acuidade visual isolada raramente revela o real comprometimento funcional.

VEJA TAMBÉM | Doença de Parkinson: sinais iniciais, diagnóstico precoce e a importância do acompanhamento multidisciplinar

Demências e comprometimento cognitivo leve

Quadros neurodegenerativos, como Alzheimer e demências vasculares, podem apresentar prejuízo de atenção dividida, dificuldade de avaliar distâncias, lentificação e erros de julgamento. Mesmo em fases leves, dirigir pode se tornar arriscado, principalmente em vias rápidas ou situações de tráfego intenso, onde a tomada de decisão precisa ser ágil.

Neuropatias e esclerose múltipla

A esclerose múltipla pode causar neurite óptica, visão dupla, fadiga visual extrema e flutuações rápidas no processamento da informação. Em neuropatias periféricas, a perda de sensibilidade e a dificuldade de coordenar movimentos comprometem reações essenciais para a segurança no trânsito.

Alterações visuais que aumentam o risco

Nem todo problema de visão tem origem exclusivamente ocular. Muitos são consequência direta de processos neurológicos. 

Entre os mais relevantes, para a direção estão:

  • hemianopsias e escotomas: reduzem drasticamente a percepção lateral e aumentam risco de colisões;
  • diplopia: dificulta a avaliação de distância e velocidade;
  • fotossensibilidade e visão borrada: prejudicam sobretudo a direção noturna;
  • negligência unilateral: o indivíduo ignora parte do espaço, mesmo enxergando, causando desvios e colisões laterais;
  • dificuldade de adaptação luminosa: o cérebro demora para ajustar contraste quando se sai de um ambiente escuro para claro ou vice-versa.

Esses fatores, somados à fadiga cognitiva, tornam o ato de dirigir incompatível com a segurança.

Quando dirigir deixa de ser seguro

Não existe um único critério universal, mas há indicadores consistentes que sugerem risco elevado:

  • perda recorrente de atenção ou lapsos de consciência, mesmo breves;
  • episódios de desorientação, visuais ou espaciais;
  • velocidade de reação reduzida, impactando frenagem e desvio;
  • dificuldade de interpretar sinais, placas ou situações de risco;
  • visão turva, campos reduzidos ou duplicidade de imagens, mesmo que intermitentes;
  • uso de medicação que afete vigília e processamento cognitivo;
  • relatos da família ou de terceiros sobre direção insegura ou acidentes menores.

Em muitos casos, o próprio paciente ainda se percebe capaz, mas a avaliação funcional demonstra o contrário.

Avaliação clínica e legal

Avaliar a aptidão para dirigir é tarefa interdisciplinar. O processo integra:

  • exames oftalmológicos para verificar acuidade, campo visual e sensibilidade ao contraste;
  • avaliação neurológica e cognitiva para medir atenção, função executiva, memória e julgamento;
  • observação de direção simulada ou prática supervisionada, quando necessária;
  • revisão rigorosa do uso de medicamentos e possíveis interações.

No âmbito legal, cada país adota critérios específicos, mas todos convergem para dois princípios essenciais:

(1) proteger a segurança pública e
(2) garantir autonomia do paciente enquanto sua condição permitir.

VEJA TAMBÉM | A Importância da Saúde do Condutor para a Segurança no Trânsito: Como Prevenir Doenças e Melhorar o Desempenho ao Volante?

Reabilitação e estratégias para preservar autonomia

Em muitas situações, o risco não significa incapacidade permanente. Programas de reabilitação visual e cognitiva auxiliam a recuperar habilidades, treinar compensações e reforçar limites. 

Estratégias comuns incluem:

  • treino para ampliar varredura visual, compensando áreas de perda;
  • simuladores para trabalhar reação e tomada de decisão;
  • adaptação de rotinas, evitando horários de maior tráfego e direção noturna;
  • reavaliação periódica com neurologista e oftalmologista.

Quando dirigir não é mais seguro, alternativas de mobilidade devem ser discutidas precocemente para preservar autonomia e qualidade de vida.

Considerações finais

Dirigir é um ato complexo que depende de integração refinada entre visão, cérebro e movimento. Transtornos neurológicos podem comprometer esse equilíbrio de forma sutil ou evidente, tornando o trânsito inseguro.

Reconhecer os sinais, buscar avaliação especializada e entender os limites impostos pela condição são passos fundamentais para prevenir acidentes e proteger a integridade do próprio condutor e de todos ao redor.

Na Associação Paulista para o Desenvolvimento para a Medicina (SPDM), você encontra informações sobre diversos transtornos e abordagens de tratamento, além de conhecer nossa rede de cuidado, presente em mais de 500 unidades de saúde.


Fontes Consultadas

  1. PubMedCentral. Lived experience of driving in individuals with functional neurological disorder. Disponível em:http://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11338837/ 
  2. PubMedCentral. Visual disorders and driving ability in persons with dementia: A mini review. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9744967/ 

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