A hérnia de hiato ocorre quando uma parte do estômago se desloca do abdômen para o tórax através de uma abertura no diafragma, músculo que separa essas duas cavidades e auxilia na respiração.
Esse deslocamento pode causar sintomas como azia, queimação, refluxo gastroesofágico, dor torácica e dificuldade para engolir.
O tratamento varia conforme o tipo e a gravidade, podendo incluir mudanças alimentares, uso de medicamentos e, em alguns casos, cirurgia.
Entendendo o que é o hiato e como surge a hérnia
O diafragma é o principal músculo da respiração. Ele contém uma pequena abertura chamada hiato esofágico, por onde passa o esôfago antes de se ligar ao estômago.
A hérnia de hiato ocorre quando o hiato se alarga, permitindo que parte do estômago “suba” para dentro da cavidade torácica.
Esse deslocamento altera o funcionamento normal da junção entre o esôfago e o estômago, favorecendo o refluxo ácido, retorno do conteúdo gástrico ao esôfago, e irritando sua mucosa.
Tipos de hérnia de hiato
Há quatro tipos principais, classificados conforme a porção do estômago envolvida e o grau de deslocamento:
- hérnia de hiato por deslizamento (tipo I): é a mais comum, representando cerca de 90% dos casos. O estômago e o esfíncter esofágico inferior deslizam temporariamente para o tórax. Está fortemente associada ao refluxo gastroesofágico;
- hérnia paraesofágica (tipo II): o esôfago permanece em posição normal, mas parte do estômago se projeta ao lado dele. Pode causar compressão e risco de encarceramento, exigindo vigilância ou cirurgia;
- hérnia mista (tipo III): combina os mecanismos da hérnia deslizante e da paraesofágica;
- hérnia gigante (tipo IV): envolve o deslocamento de órgãos adicionais, como cólon ou baço, para o tórax. É mais rara e quase sempre requer correção cirúrgica.
Causas e fatores de risco
A hérnia de hiato resulta da fragilidade ou aumento da pressão sobre o diafragma, o que pode ocorrer por diversas razões:
- envelhecimento (enfraquecimento natural dos tecidos);
- obesidade ou sobrepeso;
- gravidez;
- tosse crônica ou esforço físico intenso;
- constipação com esforço repetido para evacuar;
- levantamento frequente de peso;
- alterações anatômicas congênitas.
Em muitos casos, a causa é multifatorial, e o diagnóstico é feito quando os sintomas se tornam persistentes.
Sintomas da hérnia de hiato
Muitas pessoas com hérnia pequena não apresentam sintomas. Quando há refluxo e irritação esofágica, surgem manifestações típicas:
- azia e queimação retroesternal (piora após comer ou deitar);
- regurgitação de alimentos ou líquidos ácidos;
- dor ou pressão no peito;
- rouquidão matinal ou tosse crônica;
- sensação de “bolo na garganta”;
- dificuldade para engolir (disfagia);
- náuseas após as refeições.
Sintomas respiratórios, como tosse noturna e pigarro constante, também podem estar associados, devido à irritação causada pelo ácido.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico da hérnia de hiato é feito por meio da avaliação clínica e de exames de imagem ou endoscopia.
Os principais métodos incluem:
- endoscopia digestiva alta: mostra o deslizamento do estômago e eventuais lesões no esôfago;
- radiografia contrastada de esôfago e estômago: avalia o tamanho e o tipo da hérnia;
- manometria esofágica: mede a força e a coordenação dos movimentos do esôfago;
- pHmetria esofágica: identifica episódios de refluxo ácido e sua relação com os sintomas.
Esses exames permitem diferenciar a hérnia de outras condições que causam sintomas semelhantes, como gastrite ou úlcera.
Tratamento da hérnia de hiato
O tratamento depende do tipo e da gravidade da hérnia e dos sintomas apresentados. Em grande parte dos casos, o manejo é clínico, com medidas comportamentais e medicamentosas.
A cirurgia é reservada para situações específicas.
1. Medidas não cirúrgicas
Incluem ajustes de estilo de vida e alimentação:
- fazer refeições menores e mais frequentes;
- evitar deitar logo após comer (esperar pelo menos duas horas);
- reduzir alimentos que favorecem o refluxo: frituras, café, álcool, chocolate, refrigerantes e alimentos muito gordurosos;
- manter o peso corporal adequado;
- elevar a cabeceira da cama em cerca de 15 a 20 cm;
- evitar roupas apertadas e esforço excessivo após as refeições;
- parar de fumar.
2. Tratamento medicamentoso
Utiliza fármacos que reduzem a acidez e aliviam a irritação esofágica:
- inibidores da bomba de prótons (IBPs), como omeprazol e pantoprazol;
- bloqueadores H2, como ranitidina ou famotidina;
- procinéticos, que aceleram o esvaziamento gástrico.
Esses medicamentos devem ser prescritos e monitorados por um médico, especialmente em uso prolongado.
3. Tratamento cirúrgico
A cirurgia é indicada quando há refluxo grave, falha do tratamento clínico ou riscos de complicações (como estrangulamento da hérnia).
O procedimento mais utilizado é a fundoplicatura laparoscópica, que reforça a junção entre o esôfago e o estômago e reduz o refluxo.
Em hérnias volumosas, pode ser necessário reduzir o estômago ao abdômen e reconstruir o hiato.
Complicações possíveis
Quando não tratada adequadamente, a hérnia de hiato pode causar complicações, como:
- esofagite erosiva crônica;
- estenose (estreitamento) do esôfago;
- úlceras esofágicas;
- sangramentos digestivos;
- anemia por perda crônica de sangue;
- aumento do risco de esôfago de Barrett, condição precursora do câncer esofágico.
O acompanhamento médico regular é essencial para prevenir essas consequências.
Tem cura?
A hérnia de hiato tem controle e pode ser corrigida, mas a cura depende do tipo e da resposta ao tratamento. Nos casos leves, o controle clínico é suficiente. Nos casos graves, a cirurgia pode resolver o problema de forma definitiva.
O sucesso do tratamento também depende de mudanças sustentadas no estilo de vida, controle de peso e adesão às orientações médicas.
O papel da SPDM no cuidado ao paciente
A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) gerencia unidades públicas de saúde que oferecem atendimento especializado em gastroenterologia e cirurgia digestiva.
Nessas unidades, pacientes com sintomas de refluxo ou suspeita de hérnia de hiato recebem avaliação multiprofissional, incluindo exames diagnósticos, tratamento clínico e encaminhamento cirúrgico quando necessário.
O foco é oferecer cuidado integral, humanizado e baseado em evidências científicas, promovendo alívio dos sintomas e qualidade de vida.
Conclusão
A hérnia de hiato é uma condição comum, mas frequentemente subdiagnosticada. Reconhecer seus sintomas e buscar avaliação médica é essencial para evitar complicações e controlar o refluxo.
Com acompanhamento adequado, é possível aliviar a dor, restaurar o conforto digestivo e prevenir danos ao esôfago.Cuidar do sistema digestivo é investir em bem-estar e qualidade de vida.
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Fontes consultadas
- Cleveland Clinic. Hiatal Hernia: Symptoms, Diagnosis and Treatment. Disponível em: https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/8098-hiatal-hernia
- National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK). Definition & Facts for Hiatal Hernia. Disponível em: https://www.niddk.nih.gov/news/media-library/17889
- American College of Gastroenterology (ACG). Guidelines for the Diagnosis and Management of Gastroesophageal Reflux Disease. 2022. https://journals.lww.com/ajg/fulltext/2022/01000/acg_clinical_guideline_for_the_diagnosis_and.14.aspx
- Sociedade Brasileira de Gastroenterologia. Doença do refluxo e hérnia de hiato – recomendações clínicas. Disponível em: https://www.sbmdn.org.br/doencas-relacionadas/doenca-do-refluxo-gastroesofagico-drge/