Por volta de 10% a até 40% da população mundial tem sensibilidade ao ruído (hipersensibilidade auditiva). Nesta condição, as pessoas sentem perturbações quando escutam diferentes tipos de sons imediatos. De fato, esta situação pode interferir na vida particular e social de quem convive com esse problema, consideravelmente.
A sensibilidade ao ruído prejudica a paz de espírito de muitas pessoas, por menos ruidoso que seja o barulho. Além do mais, em certos públicos, o som prejudica a saúde física e mental também ao longo prazo.
Em termos populares, alguns críticos refutam a sensibilidade ao ruído e apontam que este transtorno é uma mera questão de personalidade, em pessoas irritáveis, de um modo geral. Contudo, nos últimos anos, certas pesquisas surgem para indicar a existência de condições biológicas reais como causas.
Na prática, cada cérebro reage de forma diferente aos barulhos do dia a dia. Mas, algumas pessoas nascem com sensibilidade ao ruído, efetivamente. No entanto, há soluções para atenuar esta condição e melhorar a qualidade de vida dos indivíduos.
O que é sensibilidade ao ruído
Sobretudo, devemos considerar a sensibilidade ao ruído como uma condição diferente de outros transtornos referentes à sonoridade. Por exemplo: misofonia e hiperacusia. Veja as diferenças:
- misofonia: pouca tolerância a certos tipos de sons como cliques, batidas, mastigação ou limpeza de garganta;
- hiperacusia: é a sensação por vezes dolorosa de sentir que os sons são mais altos do que a realidade;
- sensibilidade ao ruído: sensibilidade a qualquer tipo de som, independente da percepção ou do volume real.
Fatores que desencadeiam a sensibilidade ao ruído
Seja dentro ou fora de casa, diversos tipos de barulhos podem despertar os incômodos sintomas da sensibilidade ao ruído, mesmo se estiverem abaixo dos limites de decibéis, legalmente. Listamos abaixo alguns:
- sussurros;
- abertura de embalagens de doces;
- mínimos barulhos na hora de dormir ou trabalhar;
- música no momento em que a pessoa precisa se concentrar;
- arrastamento ou instalação de móveis;
- descarga do banheiro da própria casa ou de vizinhos;
- aspirador de pó, máquina de lavar ou outros eletrodomésticos;
- soprador de folhas, lavadoras de alta pressão e cortadores de grama;
- choro de crianças;
- latidos de cachorros e miados de gatos;
- baque suave no teto.
Sintomas mentais da sensibilidade ao ruído no dia a dia
As sensações que esta sensibilidade causa na pessoa nesta condição são impossíveis de ignorar. Praticamente, os sintomas não permitem que o indivíduo siga a vida com bem-estar. Veja a lista dos efeitos nocivos:
Ansiedade
Uma vez que surge a ansiedade pelo ruído, o indivíduo não consegue se concentrar no desenvolvimento de tarefas profissionais ou familiares, o que piora a sensação ansiosa. Na prática, até o usufruto do lazer perde a efetividade e a pessoa não sente que descansa realmente.
Depressão
Diversas reações emocionais negativas despertam pela sensibilidade ao ruído, o que por consequência leva à depressão, tendencialmente. A pessoa pode pensar que não consegue atingir os objetivos porque o barulho prejudica o desempenho profissional, por exemplo. Além do que, a necessidade de evitar gatilhos sonoros às vezes faz a pessoa permanecer depressiva, em isolamento social.
Estresse
A irritabilidade decorrente desta condição pode resultar na perda do controle emocional, o que leva à tomada de decisões impulsivas e prejudiciais, seja no curto ou longo prazo.
Por exemplo, por estar estressado pelo barulho, um indivíduo talvez tome péssimas decisões nos negócios, na vida amorosa, entre outras situações. Em alguns casos, a condição pode levar a ataques de pânico que exigem intervenções psiquiátricas.
Repulsa
O sentimento de repulsa aos sons cotidianos é um dos sintomas, de maneira que a pessoa pode sentir uma extrema aversão aos meros ruídos, no ambiente urbano ou rural. Desta maneira, a sensação está além do mero incômodo. Surge uma abominação até por pessoas, animais e aparelhos que geram o barulho.
Raiva
A sonoridade talvez ocasione uma raiva que resulta no descontrole emocional. Ao depender da intensidade, a pessoa pode ter ataques ao ponto de quebrar móveis em casa, se machucar ou tirar satisfação com vizinhos e outras pessoas que originam o barulho, algo um tanto perigoso em certos cenários.
Medo
Consiste em um medo extremo, persistente e desproporcional aos ruídos, mesmo que não sejam altos, constantes ou ameaçadores. Resumidamente, em certos quadros clínicos, o indivíduo fica amedrontado a todo instante com a hipótese de surgir algum barulho.
Evitação
Consiste em uma sensação desencadeada pelo cérebro que interpreta o barulho como algum tipo de ameaça, ao ponto de ativar a necessidade de a pessoa escapar o quanto antes do ambiente sonoro, no sentido de sentir um alívio imediato.
Fadiga mental
O cansaço mental é um dos resultados da sensibilidade ao ruído, uma vez que a fadiga ocorre porque o cérebro está em alerta constantemente, seja pela expectativa de surgir ou de acabar o barulho.
Menos qualidade de sono
O transtorno causa despertares às vezes imperceptíveis, ao ponto de reduzir o período de sono profundo e desencadear uma série de problemas como: dificuldade de concentração, sonolência durante o dia e irritabilidade.
Mau humor
O mau humor da pessoa com esta sensibilidade também é o resultado de outros sintomas como: menos qualidade de sono, cérebro cansado, medo, raiva, repulsa, estresse, depressão e ansiedade.
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Sintomas físicos da sensibilidade ao ruído
Além dos sintomas mentais, a sensibilidade ao ruído afeta a saúde cardíaca. Em síntese, não é incomum que pessoas que convivem com esse transtorno indiquem o aumento nos batimentos cardíacos, assim como da pressão sanguínea. Assim, existe a possibilidade desse quadro desencadear uma série de efeitos físicos negativos. Por exemplo: visão embaçada, palpitações, tonturas e dor de cabeça.
Ao longo prazo, há riscos de doenças cardíacas, diabetes e demência. Aliás, uma vez que este transtorno não possibilita um descanso físico adequado, a pessoa tende a sentir cansaço. Deste modo, há menos energia para desempenhar as tarefas diárias, o que resulta em reveses na vida familiar e profissional.
Quais razões explicam a sensibilidade ao ruído
Do ponto de vista científico, ainda não têm uma conclusão efetiva que explica o comportamento cerebral diferente nos indivíduos com sensibilidade ao ruído.
Contudo, certas pesquisas entendem que o transtorno tem relação com a forma como o cérebro filtra as informações do som nas pessoas nesta condição, em comparação aos indivíduos sem este padrão.
Talvez isso ocorra porque, nos públicos sensíveis sonoramente, existe menos eficiência em um grupo celular no núcleo geniculado medial, uma espécie de estação com a função de retransmitir dados sobre sons que acessam o cérebro.
Interessante notar que no indivíduo com este transtorno auditivo e psicológico, seja durante o sono ou ao estar acordado, tal padrão de filtragem pode apresentar menos efetividade.
Além deste filtro cerebral, outros fatores são investigados como causas da sensibilidade ao ruído: ansiedade, esquizofrenia, lesões cerebrais traumáticas, autismo, ambientes barulhentos e hereditariedade, ou seja, a pessoa já nasce nesta condição.
Como tratar a sensibilidade ao ruído
Não há uma forma de tratamento para curar a sensibilidade ao ruído. Mas, algumas recomendações auxiliam a fim de reduzir ruídos e atenuar os sintomas:
- não morar em regiões barulhentas;
- recorrer a plugues ou abafadores de ouvido;
- transformar os espaços em áreas à prova de som;
- tratar a ansiedade com medicamentos, conforme a orientação médica;
- terapia cognitivo-comportamental ao controle das reações psicológicas e comportamentais;
- terapia musical com músicas suaves de harpa ou piano;
- arteterapia para relaxar, assim como expressar e regular as emoções.
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Perguntas frequentes
Como diagnosticar a sensibilidade ao ruído?
Uma das formas de diagnóstico é com o preenchimento de questionários, por exemplo: a escala de sensibilidade ao ruído de Weinstein. Nela, há perguntas cujas respostas ajudam a avaliar a existência desta condição.
A sensibilidade ao ruído está relacionada ao autismo?
Embora pessoas autistas possam ter algum grau de sensibilidade ao ruído, esta não é uma condição que define se alguém tem ou não autismo, necessariamente.
Por que o barulho me irrita?
O fato de o barulho irritar pode ou não ter relação com algum transtorno de sensibilidade ao ruído. Alguns outros motivadores que não devemos descartar são: traumas, ansiedade e estresse por outras razões.
Como parar de se irritar com barulho?
Um conselho para diminuir a irritação com o barulho é realizar terapia sonora. Além disso, existem outros métodos de relaxamento aconselháveis, como, por exemplo, meditação e yoga.
Como a SPDM contribui no tratamento da sensibilidade ao ruído
Com uma abordagem em prevenção, diagnóstico e reabilitação, por meio das próprias unidades de saúde, a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) também se dedica nos tratamentos para as pessoas que sofrem de sensibilidade ao ruído.
Gratuitamente, a SPDM disponibiliza serviços de otorrinolaringologia para tratar a sensibilidade sonora, assim como atendimento psiquiátrico e psicológico, contribuindo para a melhora da qualidade de vida do paciente. Ademais, atuamos com educação, tanto em publicações como nas campanhas que alertam sobre a importância do diagnóstico precoce.
Considerações finais
Popularmente, a sensibilidade ao ruído pode ser vista como um tipo de frescura ou algo de gente com uma personalidade irritada. Mas, a ciência comprova os diversos sintomas que o simples ruído tende a causar no cérebro de pessoas com este sério transtorno.
Em conclusão, a sensibilidade ao ruído afeta a saúde mental e física. Às vezes, ela gera sintomas intensos por um simples barulho de vizinhos, aparelhos, pets ou crianças. Não há garantias de cura, mas o tratamento tende a trazer mais paz ao paciente, enquanto o mundo ao redor continua barulhento.
Fontes consultadas
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