O envelhecimento traz inúmeras transformações, físicas, cognitivas, sociais, e muitas vezes, em meio a essas mudanças, a saúde mental do idoso é negligenciada.
Todavia, ela é tão essencial quanto a saúde física, pois o bem-estar emocional influencia diretamente a qualidade de vida, autonomia e longevidade.
O panorama da saúde mental no envelhecimento
Embora haja um estereótipo de que a velhice necessariamente implica em tristeza, resignação ou deterioração emocional, a realidade é mais complexa.
Muitos idosos mantêm níveis estáveis de bem-estar emocional, desenvolvendo estratégias de regulação afetiva ao longo da vida.
Em estudos longitudinais, verifica-se que, até certo ponto, as pessoas mais velhas relatam emoções positivas com mais frequência e uma diminuição na reatividade negativa.
No entanto, isso não significa ausência de vulnerabilidades. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 14% dos adultos com mais de 60 anos sofrem de algum transtorno mental, sendo os mais comuns depressão e ansiedade.
A presença de doenças crônicas, perdas (de entes queridos, de independência), isolamento social e discriminação por idade (ageísmo) elevam o risco de sofrimento psicológico.
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Fatores de risco e determinantes sociais
Diversos aspectos atuam como gatilhos ou aceleradores de quadros emocionais negativos no idoso:
- Doenças crônicas e limitações físicas: dores, mobilidade reduzida e dependência tendem a impactar autoestima e humor.
- Perdas e lutos sucessivos: o falecimento de pares, perda de papel social, aposentadoria e rupturas de relacionamentos.
- Solidão e isolamento social: particularmente em idades avançadas, relações humanas, tendem a se estreitar. Estudos mostram que apoio social informal atua como fator protetor, retardando progressão de sintomas depressivos.
- Estigma interno e ageísmo: quando o idoso internaliza visões depreciativas do envelhecimento, isso afeta o bem-estar psicológico. Revisões apontam associação negativa entre ageísmo percebido e satisfação de vida.
- Barreiras ao acesso a serviços de saúde mental: alto custo, estigma, falta de percepção de necessidade e dificuldades logísticas. Revisão sistemática evidencia esses obstáculos claramente.
Transtornos mentais mais frequentes na terceira idade
1 – Depressão em idosos
A depressão não é “normal” no envelhecimento, embora possa acontecer com frequência elevada.
Ela tende a se manifestar de forma diferente dessa fase da vida com fadiga, queixas somáticas, piora de doenças físicas e menos queixas verbais de tristeza. Distingui-la de “tristeza adaptativa” requer atenção clínica especializada.
2 – Ansiedade
Transtornos de ansiedade também afetam muitos idosos, frequentemente alimentados por preocupações legítimas com saúde, futuro, perdas e inseguranças.
É importante diferenciar preocupação normal de transtorno de ansiedade clínico, que atrapalha o funcionamento e requer intervenção.
3 – Luto complicado e distúrbios adaptativos
Perdas frequentes nessa fase da vida podem desencadear quadros de luto complicado, quando a reação se prolonga excessivamente, interfere no cotidiano e não evolui naturalmente.
Distúrbios adaptativos, em resposta a mudanças (mudança de residência, aposentadoria, morte de cônjuge), também podem gerar sofrimento emocional significativo.
4 – Demência, transtornos neurocognitivos
Embora não sejam estritamente transtornos afetivos, demências e outras doenças neurocognitivas têm impacto mental intenso.
Elas frequentemente coexistem com depressão e ansiedade, exigindo abordagem integrada entre neurologia, psiquiatria e gerontologia.
Promoção e prevenção da saúde emocional no idoso
Focar apenas no tratamento posterior é insuficiente. Estratégias preventivas e promotoras da saúde mental são fundamentais:
- Estimular e manter redes sociais: participação em grupos, atividades comunitárias, voluntariado ou encontros intergeracionais.
- Atividade física regular: exercício comprovadamente melhora humor, reduz ansiedade e fortalece autoestima.
- Estimulação cognitiva e ocupação significativa: aprender, produzir, cultivar hobbies e manter rotina com propósito.
- Intervenções psicológicas precoces: terapias como terapia cognitivo-comportamental adaptadas ao idoso podem prevenir agravamentos.
- Ambientes favoráveis ao envelhecimento: cidades, residências e serviços de saúde adaptados às necessidades físicas, emocionais e sociais do idoso.
- Políticas de combate ao ageísmo e promoção de representações positivas da velhice, diminuindo o preconceito que pesa no emocional.
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Desafios no cuidado e no acesso ao tratamento
Mesmo com estratégias eficazes, muitos idosos enfrentam barreiras para receber cuidado em saúde mental:
- Estigma e autopercepção de que “isso é normal da idade”: muitos não buscam ajuda por acreditarem que “é natural envelhecer e sofrer”.
- Custo e logística: deslocamento, mensalidades e acesso limitado a especialistas em geriatria e saúde mental.
- Integração entre atenção primária e saúde mental: muitos casos são identificados apenas no consultório de clínica geral, sem encaminhamento adequado.
- Capacitação de profissionais: poucos profissionais estão treinados para reconhecer e tratar transtornos mentais no idoso com as adaptações necessárias.
Abordagem integrada no cuidado ao idoso
O cuidado efetivo da saúde emocional deve ser interdisciplinar:
- Médicos de atenção primária e geriatras fazem triagem e encaminhamento
- Psicólogos e psiquiatras adaptam intervenções à realidade senil
- Terapeutas ocupacionais e assistentes sociais promovem engajamento social e autonomia
- Familiares e cuidadores participam como rede de suporte e vigilância emocional
O modelo colaborativo, em que a saúde mental é integrada ao cuidado global do idoso, apresenta melhores resultados em adesão, estabilidade emocional e prevenção de recaídas.
Conclusão
A saúde emocional do idoso é um componente vital do envelhecimento saudável. Se por um lado muitos mantêm equilíbrio emocional e até aumentam a regulação afetiva com o passar dos anos, por outro, há vulnerabilidades significativas que exigem atenção, depressão, ansiedade, luto complicado e barreiras ao cuidado.
Abordagens preventivas, promoção de redes de suporte, acesso facilitado a serviços e combate ao ageísmo são caminhos centrais.
Investir na saúde mental do idoso não é luxo: é exigência para permitir que essa fase da vida seja digna, ativa e significativa na sociedade.
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Fontes consultadas
Mental health care for older adults: recent advances and new frontiers — aborda transtornos mentais em idosos, avanços no cuidado e desafios futuros. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9453913/ PMC
Quality-of-life in older adults: its association with emotional distress and psychological wellbeing — estudo que investiga como ansiedade, depressão e bem-estar psicológico impactam a qualidade de vida de idosos. Disponível em: https://bmcgeriatr.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12877-024-05401-7 BioMed Central
Barriers and facilitators of older adults for professional mental health services — revisão sistemática que identifica os obstáculos e facilitadores para idosos buscarem atendimento de saúde mental. Disponível em: https://www.bmcgeriatr.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12877-023-04229-x BioMed Central
Optimizing Older Adult Mental Health in Support of Healthy Ageing: A Pluralistic Framework — propõe um modelo integrador para promoção da saúde mental em idosos dentro de ambientes comunitários e de saúde. Disponível em: https://www.mdpi.com/1660-4601/21/6/664 MDPI