O que é a amebíase
Imagine uma doença que pode ser silenciosa, passando despercebida por meses ou até anos, mas que também tem o potencial de ser devastadoramente fatal.
Essa é a amebíase, uma infecção causada por um parasita que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é a segunda principal causa de morte por doenças parasitárias em todo o mundo.
Nos Estados Unidos, por exemplo, inclusive, tornou-se a infestação parasitária mais comum encontrada por cirurgiões.
O protozoário Entamoeba histolytica
O grande responsável por essa condição é o protozoário Entamoeba histolytica.
Ele existe em duas formas principais:
- cisto: esta é a forma infectante, que consegue sobreviver fora do corpo humano e é transmitida. Os cistos são resistentes ao ressecamento no solo e podem viver em ambientes úmidos, alimentos ou água por semanas;
- trofozoíto: esta é a forma patogênica e móvel do parasita, que causa a doença invasiva. Os trofozoítos vivem na parede e no lúmen do cólon, alimentando-se de bactérias e células da mucosa. Eles não sobrevivem fora do corpo e, portanto, não transmitem a doença diretamente.
Como a Amebíase se espalha
A principal forma de transmissão é a ingestão de cistos de alimentos ou água contaminados.
Uma vez ingerido, o cisto se desintegra no intestino delgado e libera os trofozoítos no cólon.
Mas aqui vem um ponto de atenção importante: a amebíase está reemergindo em países desenvolvidos como uma infecção sexualmente transmissível (IST).
A transmissão sexual ocorre principalmente através da rota fecal-oral, como em práticas sexuais oral-anais, e é um risco documentado em populações de homens que fazem sexo com homens (HSH) na América do Norte e Europa, com incidência relatada de 20% a 30%.
Isso significa que a história sexual é tão importante quanto a história de viagens ao suspeitar de amebíase.
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Regiões de maiores prevalência
Historicamente, a amebíase é endêmica nas regiões tropicais e subtropicais, como México, América Central e do Sul, Índia e África, onde o saneamento é precário e as barreiras entre fezes e suprimentos de alimentos/água são limitadas.
No entanto, em países desenvolvidos, tem havido um aumento de casos domésticos, especialmente como uma IST.
Em alguns desses contextos, a proporção de casos de transmissão doméstica chegou a 85%.
Sintomas
A amebíase pode se manifestar de várias formas, desde casos totalmente assintomáticos até condições graves e potencialmente fatais.
1 – Portadores assintomáticos
A maioria dos infectados não apresenta sintomas. O organismo vive no lúmen intestinal e libera cistos nas fezes.
Apesar de assintomáticos, eles são um reservatório de infecção e têm o potencial de desenvolver a doença invasiva (entre 4% e 10% deles).
Por isso, o tratamento para esses indivíduos é vital.
2 – Amebíase intestinal
A apresentação clínica varia de episódios leves e intermitentes de diarreia com sangue a uma colite fulminante e perfuração do cólon.
Sintomas comuns incluem dor abdominal (cólica), perda de peso, desidratação e anorexia. A febre é menos comum (<40% dos pacientes).
Os sintomas podem persistir por meses a anos, com intervalos assintomáticos.Pode mimetizar outras colites, como a colite ulcerativa, ou até mesmo apendicite. A falha em considerar a amebíase no diagnóstico diferencial pode levar a complicações catastróficas.
Formas severas e menos frequentes incluem:
- Amebomas: massas tumorais que podem mimetizar malignidade, frequentemente encontradas no ceco;
- Colite Necrotizante Fulminante: uma complicação rara, mas frequentemente fatal, com taxas de mortalidade de 50% a 100% em várias séries de casos. É crucial diferenciá-la de outras colites, pois o tratamento com esteroides pode ser fatal;
- Megacólon Tóxico: uma pequena porcentagem de pacientes pode desenvolver essa condição grave.
3 – Amebíase extraintestinal
Abscesso Hepático Amebiano: é a manifestação extraintestinal mais comum. Geralmente afeta homens adultos jovens (entre 18 e 50 anos) com taxas 3 a 20 vezes maiores do que em outras populações.
Os sintomas incluem dor no quadrante superior direito do abdômen (que pode irradiar para o ombro ou tórax direito), febre, sudorese noturna, mal-estar e anorexia.
O fluido do abscesso é tipicamente marrom-chocolate ou lembra ketchup e é estéril. As complicações incluem a ruptura do abscesso para o tórax (produzindo empiema), para o pericárdio (com alta mortalidade de 30%) ou para o peritônio.
Abscessos Cerebrais Amebianos: são raros, mas apresentam início súbito de sintomas como dor de cabeça, convulsões, vômitos e alterações do estado mental, com progressão rápida para a morte.
Outras manifestações raras:
- problemas do trato urinário;
- fístulas retovaginais;
- doença perianal;
- lesões cutâneas.
Diagnóstico
O diagnóstico da amebíase pode ser desafiador, especialmente porque é crucial diferenciar E. histolytica de sua contraparte não patogênica, Entamoeba dispar.
- Microscopia de fezes: era o método padrão, mas tem baixa sensibilidade (<60%) e, mais importante, não consegue distinguir entre E. histolytica e E. dispar.
- Testes de antígenos nas fezes (ELISA, Imunocromatografia): são mais rápidos, simples de realizar e, crucialmente, conseguem diferenciar E. histolytica de outras espécies de Entamoeba. A sensibilidade pode chegar a 88%.
- Sorologia (como o ensaio de hemaglutinação indireta – IHA): é altamente sensível e tem alto valor preditivo negativo, o que significa que um teste negativo geralmente exclui a infecção invasiva. É particularmente útil para o diagnóstico de abscessos hepáticos amebianos, com positividade em 100% dos pacientes com invasão amebiana. No entanto, um resultado positivo não distingue uma infecção atual de uma infecção passada, pois os anticorpos podem permanecer detectáveis por até 20 anos.
- PCR (Reação em cadeia da polimerase): considerado o “padrão ouro” para o diagnóstico, com alta sensibilidade (92% a 100%) e especificidade (89% a 100%). O PCR é essencial para diferenciar as espécies de Entamoeba e é muito valioso para diagnosticar infecções assintomáticas. Apesar de ser mais caro e complexo, seu uso está se tornando mais difundido.
- Colonoscopia com Exame Histológico: pode ser um adjunto útil, revelando úlceras características em forma de frasco e tecidos com necrose. A coloração PAS (Periodic Acid-Schiff) é recomendada para diferenciar trofozoítos de leucócitos no tecido.
- Exames de Imagem: ultrassom e tomografia computadorizada (TC) são úteis para detectar abscessos hepáticos e outras lesões.
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Tratamento
É fundamental ressaltar que todas as infecções por E. histolytica precisam ser tratadas devido ao risco de disseminação e complicações extraintestinais.
Medicamentos principais
A base do tratamento são os derivados de nitroimidazol, como o metronidazol.
- Metronidazol: é o tratamento de primeira linha para amebíase intestinal e abscessos hepáticos. Cerca de 90% dos pacientes são curados com metronidazol. Curiosamente, a resistência não foi detectada.
- Agente Luminal: após um curso de metronidazol, é necessário um agente luminal de segunda linha (como paromomicina, iodoquinol ou diloxanida furoato) para erradicar a colonização intestinal. Isso é crucial para prevenir a recorrência e a transmissão da doença.
- Para portadores assintomáticos com E. histolytica documentada, o tratamento com um agente luminal é recomendado para erradicar a infecção e prevenir a doença invasiva e a disseminação dos cistos.(espaço entre os parágrafos)
Abscessos Hepáticos Amebianos
A maioria dos pacientes responde bem à terapia com metronidazol. A drenagem cirúrgica ou percutânea não é geralmente necessária em casos não complicados e deve ser evitada.
No entanto, a aspiração pode ser considerada para abscessos grandes (>300 cm³), falha do tratamento médico, ou abscessos no lobo esquerdo do fígado (pelo risco de ruptura para o pericárdio).
Colite Fulminante/Peritonite
Pacientes com colite necrotizante fulminante ou sinais de peritonite requerem antibióticos de amplo espectro e, muitas vezes, intervenção cirúrgica, como a ressecção do cólon necrótico. É uma condição de alta mortalidade.
Prevenção
A prevenção da amebíase gira em torno de práticas de higiene e saneamento, mas também de conscientização sobre as novas rotas de transmissão:
- higiene rigorosa: lave as mãos frequentemente, especialmente após usar o banheiro, tocar em animais, antes de comer ou manusear lixo;
- água e alimentos seguros: evite beber água da torneira em áreas de risco (use água engarrafada), evite gelo e frutas/vegetais crus lavados com água não tratada;
- conscientização sobre transmissão sexual: é crucial que médicos e a população em geral, especialmente em países desenvolvidos, estejam cientes da amebíase como uma IST. A educação sobre práticas sexuais seguras (como evitar sexo oral-anal desprotegido) é fundamental para reduzir a disseminação;
- estratégias epidemiológicas: em grupos de alto risco, como HSH, a identificação e o tratamento de indivíduos assintomáticos são cruciais para reduzir o reservatório de infecção;
- vacinas: infelizmente, apesar dos esforços, ainda não existe uma vacina disponível contra a amebíase.
A amebíase é um desafio de saúde pública complexo, que se adapta e reaparece em novos contextos. Seja por água e alimentos contaminados ou, crescentemente, como uma infecção sexualmente transmissível em países desenvolvidos, a doença representa um risco significativo.
A conscientização de médicos e pacientes, o diagnóstico precoce (especialmente com o uso de PCR para diferenciar E. histolytica da E. dispar e identificar assintomáticos), e o tratamento adequado são as chaves para controlar a disseminação, prevenir complicações graves e, em última análise, salvar vidas.
Fique atento aos sintomas e, em caso de dúvida, procure um profissional de saúde!
Perguntas frequentes
A amebíase é contagiosa?
Sim. A transmissão ocorre principalmente pela ingestão de água e alimentos contaminados por fezes contendo cistos do parasita, mas também pode acontecer por contato sexual (via fecal-oral).
Quais são os principais sintomas da amebíase?
Os sintomas variam de assintomáticos a graves, incluindo diarreia com sangue, dor abdominal, perda de peso, febre e, em casos mais severos, abscessos no fígado.
A amebíase tem cura?
Sim. Quando diagnosticada corretamente, a amebíase pode ser tratada com medicamentos como o metronidazol e agentes luminais que eliminam os cistos.
Qual exame detecta a amebíase?
Os principais exames incluem análise de fezes, testes de antígenos, sorologia e PCR, sendo este último o mais preciso para diferenciar espécies de Entamoeba.
Como prevenir a amebíase?
A prevenção envolve higiene rigorosa, consumo de água tratada ou filtrada, cuidado com alimentos crus e adoção de práticas sexuais seguras.
Existe vacina contra a amebíase?
Não. Até o momento, não existe vacina disponível, sendo a prevenção baseada em hábitos de higiene e diagnóstico precoce.
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Fontes consultadas
- ALAVI, Karim A. Amebiasis. Seminars in Colon and Rectal Surgery, [S. l.], v. 20, n. 1, p. 33-37, fev. 2007. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2780147/.
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