A dor crônica é aquela que persiste por mais de três meses e continua mesmo após a recuperação do evento inicial que a causou.
Ela não é apenas um sintoma, mas uma condição de saúde complexa, que envolve alterações no sistema nervoso, aspectos psicológicos e fatores sociais.
Afeta a qualidade de vida, o sono, o humor e a capacidade funcional do indivíduo, exigindo tratamento multidisciplinar e acompanhamento contínuo.
O que é dor crônica?
Diferente da dor aguda, que é um alerta do organismo para um dano ou inflamação, a dor crônica permanece mesmo quando a causa inicial já foi tratada ou não pode mais ser eliminada.
Ela representa uma dissociação entre o estímulo e a percepção dolorosa, com sensibilização dos nervos e das vias cerebrais responsáveis pela dor.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a dor crônica como doença em si mesma desde 2019, incluindo-a na Classificação Internacional de Doenças (CID – 11) como um transtorno que pode ter impacto físico, emocional e social comparável ao de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes ou hipertensão.
Tipos de dor crônica
A dor crônica pode ser dividida em duas categorias principais:
1. Dor crônica primária
É aquela que não está ligada diretamente a uma lesão identificável ou doença específica.
Surge de alterações no processamento da dor pelo sistema nervoso.
Exemplos incluem:
- fibromialgia;
- dor lombar crônica inespecífica;
- síndrome de dor pélvica crônica;
- cefaleia crônica primária.
2. Dor crônica secundária
Ocorre quando a dor é consequência de uma condição clínica conhecida, como inflamação, lesão nervosa ou doença degenerativa.
Entre as causas estão:
- artrite reumatoide e osteoartrite;
- lombalgia degenerativa;
- câncer;
- neuropatias periféricas e pós-herpéticas;
- doenças autoimunes ou reumatológicas.
Causas e fatores de risco
A dor crônica pode ter múltiplas causas e ser influenciada por uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais.
Entre os principais:
- lesões ou cirurgias prévias;
- doenças reumáticas e neurológicas;
- distúrbios metabólicos, como diabetes;
- estresse físico e emocional prolongado;
- alterações do sono e do humor;
- sedentarismo e sobrepeso;
- fatores genéticos e hormonais.
Com o tempo, o sistema nervoso pode se tornar hipersensível, amplificando os sinais de dor mesmo diante de estímulos leves, fenômeno conhecido como sensibilização central.
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Sintomas mais comuns
A dor crônica pode se manifestar de formas diferentes dependendo da causa, mas alguns sintomas são recorrentes:
- dor contínua ou recorrente que dura mais de três meses;
- sensação de queimação, pontadas ou peso nas articulações e músculos;
- cansaço constante e sono não reparador;
- alterações de humor, como ansiedade e depressão;
- dificuldade de concentração e perda de produtividade;
- esquiva de atividades físicas ou sociais por medo da dor.
Esses sintomas frequentemente se sobrepõem e criam um ciclo de sofrimento físico e emocional que precisa ser interrompido com intervenção profissional.
Diagnóstico
O diagnóstico da dor crônica é clínico, baseado na história do paciente, na duração dos sintomas e na exclusão de causas agudas.
O médico avalia o tipo, a localização, a intensidade e os fatores agravantes ou de alívio da dor, além de possíveis repercussões no sono e no humor.
Exames complementares, como ressonância magnética, ultrassonografia, eletroneuromiografia ou testes laboratoriais, podem ser solicitados para identificar doenças de base, mas não há um exame único que confirme a dor crônica.
A abordagem ideal envolve uma avaliação multiprofissional, incluindo médicos, fisioterapeutas, psicólogos e terapeutas ocupacionais.
Tratamento da dor crônica
O tratamento deve ser individualizado e multidimensional, combinando intervenções farmacológicas, físicas e psicossociais.
1. Medicamentos
- analgésicos e anti-inflamatórios, usados com cautela para controle inicial;
- antidepressivos e anticonvulsivantes, úteis em casos de dor neuropática;
- relaxantes musculares e opioides em doses controladas, quando indicados;
- terapias tópicas com anestésicos locais ou capsaicina em áreas específicas.
2. Reabilitação e fisioterapia
- exercícios de fortalecimento e alongamento muscular;
- técnicas de fisioterapia e terapia manual;
- terapias aquáticas e atividades de baixo impacto, como pilates e caminhada;
- educação em dor, que ensina o paciente a compreender e lidar com o sintoma.
3. Apoio psicológico
A psicoterapia cognitivo-comportamental tem papel importante na modulação da percepção da dor e na prevenção de quadros depressivos.
Técnicas de mindfulness, relaxamento e respiração ajudam a reduzir o estresse e melhorar o enfrentamento.
4. Medicina integrativa e novos recursos
- acupuntura e eletroestimulação (TENS);
- biofeedback e meditação guiada;
- bloqueios anestésicos e neuromodulação em casos refratários;
- programas de dor crônica em centros especializados do Sistema Único de Saúde (SUS).
Impacto na qualidade de vida
A dor crônica é uma das principais causas de incapacidade no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Pode levar ao isolamento social, afastamento do trabalho e sofrimento emocional significativo.
Por isso, o tratamento não deve se limitar ao alívio físico, mas incluir reabilitação funcional e suporte psicológico contínuo.
O objetivo é devolver autonomia, restaurar o bem-estar e possibilitar que a pessoa volte a realizar suas atividades com conforto e dignidade.
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Como prevenir a dor crônica
Nem sempre é possível prevenir, mas algumas práticas reduzem significativamente o risco de desenvolver ou agravar quadros persistentes:
- tratar doenças agudas corretamente, evitando automedicação;
- manter atividade física regular e supervisionada;
- adotar postura corporal adequada no trabalho e em casa;
- evitar sobrecarga física repetitiva;
- gerenciar o estresse emocional e preservar o sono;
- buscar ajuda precoce diante de dores persistentes.
A prevenção está ligada ao autocuidado e ao acompanhamento médico periódico, especialmente para pessoas com doenças crônicas já diagnosticadas.
O papel da SPDM no cuidado à dor crônica
A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) atua na gestão de hospitais e unidades públicas de saúde que prestam atendimento a pessoas com dor crônica, oferecendo acolhimento, avaliação multiprofissional e encaminhamento especializado.
Com foco em humanização e cuidado integral, os serviços sob gestão da SPDM buscam aliviar o sofrimento, restaurar a funcionalidade e promover qualidade de vida, em parceria com o SUS.
Conclusão
A dor crônica é uma condição real, complexa e multifatorial, que exige olhar atento e abordagem integrada.
Reconhecer a dor como um problema de saúde e buscar ajuda especializada são passos fundamentais para o controle dos sintomas e a retomada da qualidade de vida.
Com acompanhamento adequado, é possível reduzir o impacto da dor, recuperar a autonomia e restabelecer o equilíbrio físico e emocional.
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Fontes consultadas
- National Institute of Neurological Disorders and Stroke (NINDS). Chronic Pain Information Page. Disponível em: https://www.ninds.nih.gov/health-information/disorders/pain
- IASP – International Association for the Study of Pain. Classification of Chronic Pain, 3rd Edition. Disponível em: https://www.iasp-pain.org/publications/free-ebooks/classification-of-chronic-pain-second-edition-revised/
- Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Dor Crônica no SUS. Disponível em:https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/dorcronica-1.pdf