O que os alimentos ultraprocessados fazem com o nosso corpo

mesa com vários alimentos ultraprocessados

Os alimentos ultraprocessados são produtos industrializados formulados com ingredientes artificiais, aditivos e baixo valor nutricional.

O consumo frequente está associado a obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, inflamação crônica, disbiose intestinal e piora da saúde mental.


Apesar de práticos, esses alimentos desequilibram o organismo, interferem nos hormônios da fome e da saciedade e aumentam o risco de doenças crônicas não transmissíveis.

Alimentos ultraprocessados e sua classificação

De acordo com a classificação NOVA, desenvolvida pela Universidade de São Paulo (USP) e adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), os alimentos são divididos em quatro grupos conforme o grau de processamento:

  1. in natura ou minimamente processados: frutas, legumes, grãos, ovos, carnes, leite e cereais integrais.

  2. processados culinários: óleos, manteiga, açúcar e sal, usados como ingredientes em preparações caseiras.

  3. processados: alimentos que passam por conservação simples, como pães, queijos, conservas e compotas.

  4. ultraprocessados: produtos industrializados prontos para consumo, ricos em aditivos químicos e formulações artificiais.

Os ultraprocessados contêm ingredientes que não são usados em cozinhas domésticas, como corantes, aromatizantes, emulsificantes, adoçantes, realçadores de sabor e conservantes, e são feitos para serem hiperpalatáveis, estimulando o consumo excessivo.

Exemplos de alimentos ultraprocessados

  • refrigerantes, sucos de caixinha e bebidas energéticas;

  • bolachas recheadas e salgadinhos de pacote;

  • pães de forma industrializados e embutidos (presunto, salsicha, peito de peru);

  • fast food, lasanhas congeladas e macarrão instantâneo;

  • cereais matinais açucarados;

  • barrinhas de cereal, iogurtes “de sabor” e produtos light ou diet artificiais.

Esses produtos passam por vários estágios de processamento químico e físico, perdendo fibras, vitaminas e antioxidantes naturais e recebendo em troca substâncias que mascaram o sabor artificial e prolongam o prazo de validade.

VEJA TAMBÉM |  O que é alimentação consciente

O que os ultraprocessados causam no organismo

O impacto do consumo frequente vai muito além do ganho de peso.

Eles alteram mecanismos metabólicos, hormonais e inflamatórios, afetando praticamente todos os sistemas do corpo.

1. Desequilíbrio hormonal e aumento do apetite

Os ultraprocessados são ricos em açúcares simples e gorduras saturadas, o que provoca picos de glicose e de insulina no sangue.

Essas flutuações reduzem a sensibilidade do organismo à insulina e aumentam o risco de diabetes tipo 2.

Além disso, esses alimentos interferem nos hormônios da saciedade (leptina e grelina), fazendo com que o corpo sinta fome mesmo após comer.

O resultado é o aumento progressivo da ingestão calórica e a tendência à obesidade.

2. Inflamação crônica e estresse oxidativo

A alta ingestão de aditivos, gorduras trans e açúcares refinados provoca inflamação sistêmica de baixo grau, um estado silencioso que está por trás de várias doenças crônicas, como:

  • aterosclerose e doenças cardiovasculares;

  • resistência à insulina;

  • síndrome metabólica;

  • cânceres relacionados ao metabolismo inflamatório.

Essa inflamação também está ligada à liberação de radicais livres, que danificam células e aceleram o envelhecimento.

3. Alterações no intestino (disbiose intestinal)

O intestino é um dos órgãos mais sensíveis ao efeito dos ultraprocessados.

A falta de fibras e o excesso de aditivos artificiais desequilibram a microbiota intestinal, reduzindo as bactérias benéficas e favorecendo espécies inflamatórias.

Esse desequilíbrio, chamado disbiose, afeta a digestão, a imunidade e até o humor, já que o intestino produz neurotransmissores como a serotonina, relacionados ao bem-estar emocional.

4. Aumento do risco cardiovascular

O consumo frequente de produtos ricos em gorduras saturadas, sódio e açúcares adicionados está diretamente associado à hipertensão arterial, dislipidemia e doenças do coração.

Esses alimentos elevam o colesterol LDL (“ruim”) e reduzem o HDL (“bom”), favorecendo o acúmulo de placas nas artérias.

Estudos recentes publicados no BMJ e no Journal of the American College of Cardiology indicam que cada aumento de 10% no consumo calórico proveniente de ultraprocessados eleva em até 12% o risco de morte por doenças cardiovasculares.

SAIBA MAIS |  Os dois lados do colesterol

5. Efeitos sobre o cérebro e a saúde mental

Os ultraprocessados também influenciam a saúde emocional e cognitiva.

Dietas pobres em nutrientes e ricas em açúcares refinados estão associadas a maior risco de depressão, ansiedade e declínio cognitivo.

Além disso, os aditivos e conservantes podem alterar a função dos neurotransmissores, contribuindo para distúrbios de humor e compulsão alimentar.

6. Comprometimento da saciedade e do comportamento alimentar

Por serem altamente palatáveis e de digestão rápida, esses alimentos não promovem saciedade duradoura.

O cérebro responde com liberação de dopamina, o neurotransmissor do prazer, de forma semelhante à observada em respostas de recompensa, criando um ciclo de consumo repetitivo e compulsivo.

Alimentos ultraprocessados e doenças crônicas não transmissíveis (DCNT)

As DCNT, como diabetes, obesidade, câncer, doenças cardiovasculares e respiratórias crônicas, são responsáveis por cerca de 74% das mortes no Brasil, segundo o Ministério da Saúde.

Entre os principais fatores de risco, destaca-se o padrão alimentar ocidental ultraprocessado.

Esses produtos oferecem muito calor e pouca nutrição, o que leva a deficiências de vitaminas, minerais e fibras essenciais.

Com o tempo, isso fragiliza o sistema imunológico e favorece doenças metabólicas e degenerativas.

Como reduzir o consumo de ultraprocessados

Mudar hábitos alimentares não exige radicalismo, mas consciência e planejamento.

As seguintes estratégias são eficazes:

  • dar preferência a alimentos in natura e preparações caseiras;

  • ler os rótulos: quanto mais ingredientes e nomes desconhecidos, maior o grau de processamento;

  • reduzir o consumo de refrigerantes, bolachas e embutidos;

  • preparar refeições com ingredientes simples: arroz, feijão, verduras, frutas e proteínas frescas;

  • planejar as compras para evitar produtos prontos e processados por conveniência;

  • hidratar-se adequadamente: substitua bebidas industrializadas por água ou sucos naturais.

Adotar uma alimentação baseada em produtos frescos e minimamente processados é uma das formas mais eficazes de prevenir doenças e preservar a saúde física e mental.

O papel da SPDM na promoção da alimentação saudável

A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) atua na gestão de unidades públicas de saúde em parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS), promovendo educação alimentar, orientação nutricional e programas de prevenção de doenças crônicas.

As ações incluem atividades com equipes multiprofissionais e incentivo à alimentação equilibrada, acessível e culturalmente adequada, reforçando o compromisso com o cuidado integral à saúde.

Conclusão

Os alimentos ultraprocessados representam um desafio crescente à saúde pública.

Embora práticos, seu consumo contínuo interfere profundamente na regulação metabólica e hormonal, aumenta o risco de doenças crônicas e compromete o bem-estar físico e mental.

Optar por uma alimentação natural e equilibrada é um investimento em longevidade, disposição e qualidade de vida.

A mudança de hábitos começa em pequenas escolhas diárias e cada refeição é uma oportunidade de cuidar do corpo e da mente.

___________________________________________________________________________________________________________

Fontes consultadas

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS). Ultra-processed foods and health risks. Disponível em: https://www.iarc.who.int/news-events/ultra-processed-foods-are-associated-with-increased-risk-of-cancer-and-cardiometabolic-multimorbidity/

  2. Monteiro, C. A. et al. Ultra-processed foods: what they are and how to identify them. Public Health Nutrition, 2019;22(5):936–941. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30744710/

  3. Ministério da Saúde – Brasil. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2ª edição, 2014. Disponível em:https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf

  4. Mayo Clinic. Processed foods: What you should know about processed, ultra-processed foods. Disponível em: https://www.mayoclinichealthsystem.org/hometown-health/speaking-of-health/processed-foods-what-you-should-know

  5. BMJ (British Medical Journal). New evidence links ultra-processed foods with a range of health risks. Disponível em https://bmjgroup.com/new-evidence-links-ultra-processed-foods-with-a-range-of-health-risks/
  6. Journal of the American College of Cardiology (JACC).Ultra-Processed Foods and Incident Cardiovascular Disease in the Framingham Offspring Study. Disponível em: https://www.jacc.org/doi/10.1016/j.jacc.2021.01.047 

Compartilhe nas Redes Sociais

Facebook
Twitter
Email
WhatsApp

SaúdeCast

Publicações

Relacionados

Acessar o conteúdo